Diferentes pontos de vista: estrategistas X oportunistas

12º Férias com Ciência – Cada macaco no seu galho, dia 3.

A relação entre insetos e plantas desperta a curiosidade de muita gente, sendo comum observarmos uma borboleta ou uma abelha pousar numa flor durante o dia. Esse evento cotidiano que muitas vezes não nos chama muita atenção tem por trás diversas histórias evolutivas, as mais fantásticas e bonitas e, por isso, no terceiro dia da 12ª edição do Férias com Ciência “Cada macaco no seu galho”, um pouco mais sobre essa história foi trabalhado.

Observando abelhas que pousam em flores, uma pessoa mais curiosa e atenta identificará características nesses insetos (especialização do terceiro par de pernas para transportar o pólen e aparelho bucal sugador) que facilitam muito a vida deles na exploração de recursos, garantindo sua sobrevivência e de seus descendentes. É a luta da sobrevivência! Na verdade, as abelhas consideram as plantas apenas como uma fonte de recursos, nada mais. Durante o ciclo de vida das abelhas, o pólen é uma importante fonte de proteínas para os imaturos (larvas), enquanto o néctar é rico em açúcar e fonte de energia para os adultos. Isto é, do ponto de vista desses insetos a polinização que realizam é uma mera consequência de seu comportamento alimentar.

 

Diante disso, a surpresa ocorre quando nos deparamos com a informação de que o pólen e as glândulas de néctar e óleo surgiram antes que as próprias abelhas!  No processo evolutivo as famílias das angiospermas apareceram antes que as abelhas, sabemos isso devido ao registro fóssil. É comum na literatura encontrarmos informações de abelhas fósseis que viveram de 60 a 100 milhões de anos, já as angiospermas são mais velhas, aproximadamente 140 milhões de anos.

Portanto, as abelhas não influenciaram em nada o surgimento das Angiospermas, que já existiam quando as primeiras abelhas de língua curta descobriram as flores. Segundo Futuyma, reconhecido autor de livros sobre o tema Evolução, as plantas exercem uma forte pressão seletiva sobre as abelhas, mas o contrário não é verdadeiro. A pressão que as abelhas exercem nas plantas é menor.

Na verdade, as abelhas são excelentes oportunistas! Querem ver exemplos? Vamos lá então… Durante a história evolutiva das abelhas ocorreram especializações em relação ao comprimento da língua que coleta o néctar, ou seja, as abelhas de língua longa (abelhas das orquídeas) são mais derivadas (recentes) em relação às abelhas de língua curta, pois conseguem coletar o néctar em flores com a corola mais longa. Outro exemplo que ilustra bem o oportunismo desses insetos foi o surgimento de guildas de polinizadores. Experimente observar em uma planta quantas espécies de abelhas visitam as flores durante o dia, você pode se surpreender! Conhece aquela planta conhecida como chapéu de napoleão (Tecoma stans)? Pois é, pesquisas mostram que 48 espécies de abelhas visitam essa espécie de planta. São oportunistas ou não são?

 

Um dado importante e interessante sobre esses insetos é que as abelhas são descendentes das vespas caçadoras. Assim, provavelmente durante a história evolutiva seus ancestrais se depararam com uma fonte de recursos (pólen e néctar) cada vez mais abundante. E é claro que, diante de uma oportunidade dessas, aquelas que conseguiram se aproveitar desses recursos se deram bem, deixando mais descendentes. Você não acha?

Mas e aquele discurso que estudamos sobre a reprodução das plantas? É comum ouvirmos a expressão de que as abelhas têm uma “recompensa” após visitar as flores. A ideia de recompensa é falsa e mostra apenas um lado da associação entre os insetos e as plantas. Nesse caso, olha-se apenas para as abelhas e suas adaptações que permitem coletar o néctar e o pólen das flores. Esquece-se que as plantas são mais antigas e grandes estrategistas.

Agora, faça um novo exercício e observe a simetria das flores. Você notará que existem as flores assimétricas, flores com simetria radial (actinomorfas), que permite que se tracem vários planos de simetria e flores com simetria bilateral ou zigomorfa, que apresenta apenas um plano de simetria (uma segunda figura com imagens desses tipos de flores?). Qual desses planos é o mais derivado e o preferido pelas abelhas? Acertou quem falou que é a flor zigomorfa, com pétala(s) maior(es) que as demais que funciona como um local de pouso (plataforma de pouso) e guias de cor. Nessa luta entre oportunistas e estrategistas, em outras palavras, nessa sobrevivência diferenciada, encontramos histórias que deve ser lembradas e investigadas.Vamos resgatar um pouco dessa história? Que tal ampliarmos nosso estudo sobre o tema trabalhado no 12º Férias com Ciência e estudarmos as vespas caçadoras e as abelhas solitárias do MuLEC! Acompanhem no site nossas postagens, com fotos e textos sobre essa história que também pode ser contada do ponto de vista das plantas.

 

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