Jornada a Arqueologia no mundo das Ciências

Batizado de Jornada porque reuniu algumas temáticas específicas que são tratadas pela Arqueologia:

  • Arte Rupestre
  • Bioarqueologia
  • Indústrias Lítica
  • Patrimônio Cultural

Todas as atividades tiveram o formato de oficinas, com conteúdo teórico e prático, culminando na apresentação dos temas desenvolvidos pelos grupos aos demais alunos, em um movimento de retroalimentação na construção do saber. Essa foi a proposta para os alunos do Adote um Cientista no dia 02 de agosto de 2018, no qual a equipe da Casa da Ciência se aliou à da empresa Arquivos da Terra para promover o evento “JORNADA A ARQUEOLOGIA NO MUNDO DAS CIÊNCIAS”, com quatro oficinas cobrindo parte do universo dos estudos e pesquisas sobre a arqueologia.      

Algumas questões de fundo permearam estas atividades para buscar uma unicidade no fechamento do evento, que valem ser explícitas aqui – como o arqueólogo constrói o conhecimento do passado humano?; Desde quando somos Humanos? Somos demasiados Humanos?; O que nos diferencia dos demais animais?; É a transformação da natureza?; O uso de técnicas?; Do fogo?; Da ferramenta capaz de tornar apto o indivíduo a viver sob condições ambientais das mais variadas?; O Pensamento?; A Memória?

 

Oficina 1

A oficina sobre Arte Rupestre “De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?”, ministrado pelo Arqueólogo Renan Falcheti Peixoto, Doutorando do MAE/USP – SP, buscou refletir sobre os processos de composição do humano moderno (o Homo sapiens sapiens) na história.

Esta oficina visou apresentar a proposta e os problemas fundamentais da arqueologia, em compasso com as grandes questões existenciais da humanidade, como aquelas formuladas por Gauguin (1897) no título de sua obra-prima: “De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?”. Ao mesmo tempo, expor os exemplos das pinturas parietais para articular as questões sobre qual a “liga” humana e a narrativa que o estudo do passado humano arqueológico pode propiciar, bem como compreender a dimensão temporal de longa duração da arqueologia. Também, como material recursivo, foi exibido um trecho do filme 2001: uma odisseia no espaço (1968) logo no começo da apresentação, buscando refletir sobre essas questões. A partir desta exposição foi proposto aos alunos que pensassem sobre três perguntas: 1) Qual narrativa podemos construir sobre o passado humano com as ferramentas da investigação arqueológica?; 2) Como você definiria o humano nos dias de hoje?; e, 3)O que deixaremos para o amanhã?

Através das pinturas parietais de Chauvet e Lascaux (sul e sudoeste da França) e da Serra da Capivara (localizada no Piauí), primeiras expressões de uma arte representativa e “naturalista”, perguntas existenciais surgem sobre o que nos fez humanos. Com esta pergunta em mente foi apresentado os paradigmas da Arqueologia Cognitiva, corrente dentro da disciplina arqueológica que estuda os mecanismos de funcionamento do pensamento e, o mapa mental internalizado no cérebro humano, que rege a maneira como sociedade e indivíduos do passado agiam e interagiam com seu mundo físico.

A primeira questão doi desenvolvida muito bem, através de inúmeros exemplos de como é possível construir um conhecimento sobre o passado com os vestígios materiais. Em especial um aluno desse grupo escreveu sozinho uma redação suplementar na qual apontava também a limitação das interpretações da disciplina. Segundo ele, não podemos nomear indivíduos, acessar seus pensamentos específicos, angústias ou medos. Por outro lado, é possível conhecer as ferramentas de atividade dos grupos, a morada, a dieta, etc.

A segunda questão de início causou certa dificuldade, porém ao relembrar elementos apresentados na explanação, abriu-se um leque de caminhos que eles puderam trilhar e elaborar suas próprias reflexões. Durante essa etapa, pode-se perceber que maior era o estímulo quando se conseguia aproximar o passado para mais perto do seu cotidiano. Daí o exercício do “olhar do arqueólogo” para compreender nosso dia-a-dia e sobre nós mesmos ao perceber as coisas que nos cercam, que criamos, usamos e descartamos.

A reflexão sobre a terceira questão trouxe muito engajamento, sobretudo ao pensar os “sítios arqueológicos que serão deixados por nós”. O quê essas coisas poderão dizer sobre nós mesmos? Alguns alunos, em especial desse grupo, comentaram sobre a destruição ambiental do presente, que pode colocar em risco a perspectiva do futuro. Consideração de suma relevância, eles conseguiram ver no consumo desenfreado de combustíveis e materiais não-biodegradáveis grandes problemas para a humanidade, denotando uma consciência aguçada em temas atuais. Também a busca por bibliografia após a oficina, de interesse espontâneo, é muito motivador, pois cria uma via importante de diálogo para o aprofundamento da temática.

 

Oficina 2

A oficina de “Bioarqueologia: o que os mortos nos contam?”, ministrada pela Arqueóloga Marina Di Giusto, Doutoranda no MAE/USP – SP, apresentou um dos campos da Arqueologia que estuda os modos de vida das populações humanas antepassadas a partir de análises dos remanescentes esqueléticos humanos e dos contextos em que são encontrados. Para tal, integra-se informações provenientes de análises osteológicas, como estimativas sexual, etária, estatura, patologias e traumas ósseos às informações ambientais e culturais do contexto em que os grupos humanos analisados estavam inseridos.

A interpretação dos remanescentes humanos provenientes de sítios arqueológicos ajuda a responder algumas questões fundamentais sobre grupos humanos do passado, tais como quem eram, quando viveram e como viveram. A oficina visou fornecer aos alunos um quadro sintético sobre o que é a Bioarqueologia e quais informações podem ser observadas nos esqueletos (sexo, idade, traumas e patologias).

Os alunos se mostraram muito interessados no conteúdo e fizeram muitas perguntas sobre nomenclatura dos ossos e como se diferencia um caso arqueológico de um caso forense. O tema de Antropologia Forense chamou muito a atenção e indagaram sobre como se tornar um arqueólogo ou um antropólogo forense. Mas, uma pergunta mais específica chamou a atenção. Ao final, uma aluna questionou se há diferença entre o tamanho do cérebro entre homens e mulheres. Segundo a pesquisadora, diferenças encontradas entre os sexos (dimorfismo sexual) está somente relacionado às questões hormonais e de evolução humana (assim como em todos os animais). Não tem absolutamente nada haver com capacidade intelectual ou com um melhor desempenho em certas atividades.


Oficina 3

A oficina sobre Indústrias Líticas “Das rochas aos artefatos”, ministrada pelo Arqueólogo Ricardo Monma, pós-graduando da Universidade de Santo Amaro – SP, apresentou aos alunos o desenvolvimento do conhecimento e de técnicas para produção de ferramentas aproveitando rochas e minerais, as quais foram ativas e fundamentais na transformação da humanidade e da paisagem ao longo do tempo. Retrocedendo às sociedades caçadoras coletoras e horticultores, estes artefatos estudados pela Arqueologia relatam sobre o extenso processo de acúmulo de conhecimentos indispensáveis para a obtenção de determinada ferramenta, tal como a escolha adequada da matéria-prima e de técnicas de lascamento ou polimento. Ademais, levou os alunos a refletirem sobre como estas matérias-primas continuam sendo apropriadas em nossa tecnologia atual, desde a construção civil, equipamentos, ornamentos, móveis até os cristais de quartzo empregados em fibras óticas, para a comunicação.

A oficina buscou despertar nos alunos, por meio dessa temática, a organização do pensamento científico através das relações de interdisciplinaridade, do desenvolvimento da percepção sensorial; do pensamento lógico; intuitivo; dedutivo; analítico e operacional, bem como o aprofundamento de conteúdos das disciplinas de Ciências, Geografia e História sob o olhar da Arqueologia.

Oficina 4

A oficina sobre Patrimônio Cultural “Mapas de afeto: reconhecendo o território e a cultura de Ribeirão Preto”, ministrada pelo Doutor em Geografia UFRJ Diogo da Silva Cardoso, levou os alunos a explorar o universo geo-histórico e cultural de Ribeirão através da cartografia social, uma ferramenta lúdica de visualização da identidade, dos pontos de interesse e dos fluxos cotidianos do lugar. Houve a construção coletiva do mapa do Patrimônio Cultural de Ribeirão Preto a partir do conhecimento e da percepção socioespacial dos alunos. A oficina visou despertar nos jovens a consciência de que podem agir de forma concreta no processo de proteção, valorização e apropriação simbólica do patrimônio cultural que lhe pertence. Ao mesmo tempo, objetivou-se a reflexão sobre as possibilidades de atuar culturalmente em prol da valorização cultural da cidade e do seu patrimônio territorial.

A princípio foi proposta a questão “por que a cidade de Ribeirão Preto é pouco conhecida do ponto de vista cultural e das artes, e também de seus sítios arqueológicos?”. Comparou-se, então, com os municípios de Araraquara (alguns alunos conhecem esta cidade, que tem um rico acervo paleontológico e arqueológico) e do Rio de Janeiro. Sobre este último, foi exposta a experiência do ministrante sobre o Patrimônio Cultural das regiões que não estão inseridas no roteiro turístico oficial (zonas Norte e periferia da Zona Oeste) e que levam a refletir sobre políticas públicas sobre a preservação patrimonial.

Para ilustrar a riqueza histórica e patrimonial da cidade, foi apresentado um mapa, criado em 1998 por uma editora local, cujo objetivo era apresentar a moradores e turistas os atrativos culturais e ambientais locais. Infelizmente, o único local onde se pode acessar publicamente o catálogo é no Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto.

A seguir, coube a eles a tarefa de criar imagens e discursos que estimulassem moradores e turistas a visitar e valorizar os espaços e bens culturais da cidade. Com esse apelo visual e paisagístico, com o uso apropriado do simbolismo que a cartografia proporciona, pode-se revelar coisas que não estão na percepção dos moradores no cotidiano. Nesse momento, os jovens questionaram sobre alguns atrativos presentes nesse mapa que eles não conheciam, chegando alguns a mostrar perplexidade por não saberem que existe uma réplica do Cristo Redentor no bosque da cidade, ou que existe um museu dedicado à história do café de Ribeirão Preto.

Divididos em grupos foi criado assim um mapa lúdico-pictórico (sem preocupação com escala ou proporções) que simula um roteiro de turismo patrimonial, ligando atrativos rurais (Museu do Café) e urbanos (Teatro Pedro II e Bosque Zoo Fabio Barreto, por exemplo); criação de crônicas fictícias e satíricas sobre a história de lugares de relevância cultural e turística local. Os jovens foram bem criativos, em especial um jovem que ficou responsável pela elaboração das histórias e colocando-as para os colegas de grupo opinar e dar novas informações para a redação do texto; e, criação de um discurso, em tom informativo e oficial, que exaltasse as belezas da cidade, elegendo um lugar histórico que, para eles, é considerado o marco cultural da cidade. Especialmente, inusitado foi ver os alunos criarem textos em literatura de cordel para falar sobre seus Bens Patrimoniais. No que foram muito aplaudidos pelos colegas.

Após a produção do texto, a segunda parte da tarefa simulou uma reunião entre gestores públicos para pensar num slogan e logo (emblema) que refletisse a identidade cultural e territorial do município. Essa parte exigiu mais criatividade deles, e o resultado foi a criação do slogan “Ribeirão Preto: um lugar que você deve conhecer” e a logo (produzida por um aluno que se prontificou a elaborá-la e desenhá-la), que consistiu nas cortinas e palco do Teatro Pedro II com o caudaloso Ribeirão Preto correndo no meio, mostrando o principal símbolo da cidade.

O grupo teve a sensibilidade de querer refletir nessa logo a integração entre natureza e urbano na história cultural de Ribeirão Preto. Essa parte mostrou afinidade com a ideia e desenho cartográfico do primeiro grupo, logo, com os anseios desses jovens. Ao longo da pesquisa e produção dos materiais, os jovens se depararam com informações e espaços de cultura desconhecidos por eles, chegando a assustá-los não conhecer espaços emblemáticos localizados na área central.

Segundo o pesquisador, mesmo que o tempo tenha sido curto para tratar de temas bastante complexos, a preparação e competência dos jovens participantes propiciou o sucesso das oficinas, demonstrando ser o projeto da Casa da Ciência de suma importância para a formação de mentes pensantes e de novos cientistas.

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