Sonhos: da ficção à ciência

“As pessoas pensam que os sonhos não são reais apenas porque eles não são feitos de matéria, de partículas. Os sonhos são reais. Mas eles são feitos de pontos-de-vista, de imagens, de memórias, de trocadilhos e de esperanças esquecidas.”

(Neil Gaiman)

Sandman” é o nome da conceituada graphic novel do escritor britânico Neil Gaiman que conta a história de Morfeu, o deus dos sonhos (que, em algumas culturas, é tido como o sandman – homem de areia -, figura que utiliza um pó mágico para fazer outras pessoas adormecerem e sonharem). A publicação explora o vasto território dos sonhos na ficção, trabalhando com possibilidades infinitas de tramas, aventuras e de reviravoltas.

A obra de Gaiman não é pioneira no assunto. Os sonhos já serviram como inspiração na literatura, artes plásticas, música, teatro, cinema e televisão. Em algumas culturas, podem ser interpretados como um presságio, indício de acontecimentos futuros. Não é para menos: nos sonhos, tudo é possível, fantástico – e o fato de isso acontecer em nossa própria cabeça, enquanto dormimos, torna esse fenômeno algo instigante às nossas superstições e curiosidade.

 

Mas o que são, de fato, os sonhos?

Esse conjunto de imagens, sons e sensações – ora desconexas e sem nenhum compromisso com a realidade, ora verossímeis e incrivelmente realistas – acontece enquanto dormimos. E acontece em nosso cérebro – isso porque todos os processos cognitivos e os mecanismos envolvidos com o comportamento são resultado de processos envolvendo o nosso sistema nervoso.

O que acontece com nosso cérebro durante o sonho? Eles são meras obras do acaso ou significam alguma coisa? Outros animais sonham? O que a ciência sabe sobre os sonhos?

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Freud, o pai da psicanálise

Essas perguntas já foram feitas pelos cientistas e, algumas, já estão respondidas. Sigmund Freud (1856 – 1939), neurologista austríaco conhecido como pai da psicanálise, foi pioneiro na busca pelo entendimento dos sonhos a partir de sua experiência clínica. Desencorajado pelos pesquisadores da época, por estar adentrando um “território nebuloso” da natureza humana, os avanços de Freud contribuíram muito para compreensão atual da mente. Em publicações como “A interpretação dos sonhos” de 1899, Freud analisou o inconsciente e o consciente, os desejos que nos movem e as mazelas de nossa personalidade. Dentre suas conclusões, destaca-se o sonho como uma satisfação alucinatória de nossos desejos e a influência dos “restos diurnos”, acontecimentos da vigília que são revisitados pela nossa memória enquanto dormimos.

Décadas após os trabalhos de Freud sobre os sonhos, outros pesquisadores preferiram outra abordagem: se sonhamos enquanto dormimos, então entender o sono pode elucidar algumas questões sobre sonhar. E foi o que aconteceu. Em 1953, dois cientistas, Eugene Aserinsky e Nathaniel Kleitman, se interessaram por estudar a atividade cerebral durante o sono através de exames de eletroencefalograma (EEG), uma técnica que mede a atividade elétrica neuronal. Nesta investigação, notaram que a atividade cerebral varia bastante durante o sono – e, em determinado estágio, é muito semelhante à atividade durante a vigília.

Se trata da fase do sono REM (rapid eye movement), chamado de sono paradoxal, por se tratar de um momento no qual o cérebro apresenta uma intensa atividade neuronal, como se estivesse acordado, mas a pessoa se encontra em um sono profundo. Além disso, pacientes que eram acordados durante seu sono REM relatavam que estavam sonhando, o que permitiu uma ligação imediata entre essa fase do sono e a ocorrência dos sonhos.

Com o registro funcional do sono, os pesquisadores se voltaram para o sono REM buscando um entendimento acerca das bases neurais do sonho. Hoje sabemos, por exemplo, que outros mamíferos, aves e parece que até mesmo alguns répteis possuem a fase REM em seus sonos, o que pode ser um indício de que esses animais também sonham.

 

(Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK10996/)
Eletroencefalograma mostrando os diferentes estágios do sono. Note como as ondas são parecida durante o estado de vigília (awake) e estágio REM (REM sleep). Retirado de http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK10996/

A intensa atividade cerebral durante o sono REM, como era de se esperar, não é semelhante à atividade durante a vigília. O tálamo, por exemplo, estrutura importante no recolhimento de estímulos internos (concentração de açúcar, relaxamento muscular, taxas hormonais, etc.) e externos (luminosidade, etc.) é quem prepara o cérebro para o sono, desativando a ponte do tronco encefálico.

Uma vez desativada a ponte, há uma menor liberação de vários neurotransmissores, como serotonina e noradrenalina. A variação nos níveis de liberação desses neurotransmissores afeta outras regiões cerebrais e inicia o ciclo de sono, que alterna entre fases não-REM e REM. Entretanto, o aumento da liberação de outro neurotransmissor, a acetilcolina, na ponte do tronco encefálico, inicia o sono REM e, com isso, está diretamente relacionada à ocorrência dos sonhos.

 

Allan Hobson, uma figura importante da área, propôs que o sonho consiste de imagens sem sentido, formadas a partir de sinais ruidosos enviados do tronco encefálico, o que os caracteriza como obras aleatórias, fruto da atividade desordenada do córtex cerebral. Embora tenha sido inicialmente aceita, a hipótese logo foi questionada. Ela não explica, por exemplo, por que algumas pessoas relatam sonhos recorrentes, que se repetem em mais de uma noite, ou por que temos mais pesadelos quando estamos preocupados ou ansiosos com algo.

No entanto, a continuação dos estudos de casos clínicos trouxe novas ideias sobre os sonhos. Por exemplo, pacientes com o tronco cerebral lesionado não apresentam o padrão de atividade cerebral característico do sono REM enquanto dormiam, mas relatavam ter sonhado (embora raros, os sonhos podem ocorrer em outras fases do sono!). Já lesões nos lobos frontal ou temporal também acarretavam em situação semelhante. Esses casos já são indicativos de que os sonhos ocorrem a partir da comunicação de diferentes áreas cerebrais, incluindo o lobo frontal, e não como resultado de uma única região encefálica. O lobo frontal, por exemplo, está envolvido com os aspectos de nossa personalidade, controle de nossas emoções, assim como a dar “sentido” às coisas – e é por isso que, durante o sonho, como a atividade no lobo frontal é diferente da vigília, o fantástico parecer real e verossímil.

 

Freud interpretou os sonhos tendo como pano de fundo os desejos e psicoses (que, segundo ele, seriam realizações desses desejos) de cada indivíduo, uma discussão que concerne à psicanálise – um ramo da psicologia que estuda a mente, os sentimentos e os pensamentos subjetivos.

Achados mais recentes, porém, começaram a aproximar os estudos da mente do estudo de substratos neurais, fisiológicos e anatômicos do nosso sistema nervoso central. Mark Solms foi o primeiro cientista a utilizar o termo “neuropsicanálise”, tentando associar os mais recentes achados funcionais e anatômicos da neurociência com as interpretações de Freud.

O Sistema Límbico é um grupo de estruturas que inclui hipotálamo, tálamo, amígdala, hipocampo, os corpos mamilares e o giro do cíngulo. Todas estas áreas são muito importantes para a emoção e reações emocionais. O hipocampo também é importante para a memória e o aprendizado.
Adaptado de http://www.afh.bio.br/nervoso/nervoso3.asp

Sabemos, por exemplo, que quadros de psicose estão associados à atividade do lobo frontal e a elevados níveis de dopamina. O fato de que ambos os eventos, psicose e sonho, estão diretamente relacionados a essa área cerebral reforça a relação entre eles, proposta por Freud. Além disso, sabe-se que a amígdala, região cerebral relacionada à emoções, pode modular sonhos e também a consolidação de memórias – isso explica porque podemos ter pesadelos e revisitar nossos traumas enquanto dormimos.

Uma outra teoria proposta pelo finlandês Antti Revonsuo, complementar às proposições da “neuropsicanálise”, defende que o sonho é uma espécie de antecipação de uma situação futura. Isso não quer dizer prever o futuro, mas antever uma situação esperada e, uma vez tendo passado pela “simulação” proporcionada pelo sonho, o indivíduo tem mais chances de sobreviver e, consequentemente, passar seus genes para as gerações seguintes. A teoria de Revonsuo, assim como as propostas de Solms, ainda precisa ser confirmada, mas explicaria a vantagem evolutiva de sonharmos e sua relação com o nosso dia-a-dia.

 

As pessoas pensam que os sonhos não são reais apenas porque eles não são feitos de matéria, de partículas”. De fato, sonhar é mais do que isso. Sonhar pode significar sobrevoar o mais alto dos edifícios ou nadar nas profundezas do oceano; pode nos fazer enfrentar nossos piores medos ou realizar nossos desejos mais íntimos; sonhar pode ser fantástico, surreal, caótico – e, mesmo assim, soar verdadeiro. Mas sabemos que os sonhos são nada menos do que fenômenos que ocorrem durante nosso sono, garantidos por processos neuronais concretos em diversas regiões do cérebro, relacionados a diversos fatores, como memórias, emoções e pensamentos. Muito já foi elucidado sobre os sonhos, mas ainda há muito a ser compreendido. E é nisto que reside a maravilha da ciência: o desejo de solucionar os mistérios e de alimentar a curiosidade, de se entender não tudo, mas o máximo que for possível – isso, para muitos cientistas, é o sonho.

 

escrito por Vinicius Anelli

edição por Matheus Rossignoli

(Este texto foi baseado na palestra ministrada pelo pesquisador Matheus Rossignoli, no dia 12 de novembro de 2015, no programa Adote um Cientista. Para saber mais sobre a palestra, confira o Adote em Pauta).

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