A criança é o pai do homem

The childhood shows the man, as morning shows the day”, John Milton (1608 – 1674)

 

Durante a 11ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia muito foi falado sobre o papel da ciência na sociedade. Convidados pela Casa da Ciência para falar sobre seu estudo pioneiro, os professores Dr. Marco Antônio Barbieri e Dra. Heloisa Bettiol trouxeram não apenas dados de sua pesquisa, mas uma grande questão aos alunos: qual a função da ciência?

 

O professor Dr. Marco Antônio Barbieri não hesitou em recorrer à arte para discutir melhor essa questão. Logo no início de sua fala, citou o poeta William Wordsworth (1770 – 1850):

My heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!
The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

(“My Heart Leaps Up”, também conhecido como “the Rainbow”, 1802)

 


O professor frisou que Wordsworth escreveu que “a criança é pai do homem”. Mas como esse poema estaria relacionado ao objeto de pesquisa de seu estudo? Barbieri falou que a arte e a ciência sempre mantiveram uma relação muito íntima ao longo da história. Ele apontou, também, que apesar disso, muito da especulação trazida pela arte e pela filosofia é ignorada na ciência ocidental dos dias de hoje. E isso é um equívoco. Por exemplo, William Wordsworth não sabia, mas ao escrever seu famoso poema, “the Rainbow” (“O Arco-Íris”), no início do século XIX, ele estaria adiantando algo que os cientistas só começariam a notar mais de um século depois, na década de 1980; foi nessa época que se começou a associar a saúde da criança com a do adulto, ou seja, a relação entre fatores operantes na infância precoce com o adulto que esse indivíduo viria a se tornar no futuro. Um pouco antes, na década de 30, havia sido apontado em uma importante revista científica inglesa, the Lancet, que cada geração após a idade de 5 anos carrega consigo a mesma mortalidade relativa por toda a vida. Em meados da década de 70, quando o exército holandês fazia exames médicos para a admissão de novos recrutas, notou-se algo curioso: os 300 mil jovens de 19 anos em 1976 haviam sido expostos à grande fome entre 1944 e 1945, chamada de Dustch Famine, e que se deu devido aos desdobramentos da 2ª Guerra Mundial (uma parte da Holanda foi cercada pelo exército alemão impedindo a entrada de alimentos suficientes para aquela população). O que se notou foi que dentre os jovens que haviam sido expostos à fome entre o último trimestre de gestação de suas mães e o 1º mês após o parto havia uma menor porcentagem de jovens obesos do que dentre os jovens expostos à fome durante a primeira metade da gestação de suas mães. Esse foi um indício de que as condições durante o início da vida repercutiram na idade adulta desses jovens.
 

Barbieri: Embora ainda não esteja claro para vocês, já vou lhes adiantar: o que se sabe, é que a criança, até o 6º mês de gestação, tem maior velocidade de crescimento em comprimento; do 6º ao 9º mês, seu sua velocidade de crescimento é maior em massa (peso).

 

Essa relação entre a infância precoce e a vida adulta se tornou mais evidente com os estudos de um pesquisador e pediatra inglês, David Barker, que, no final dos anos 80, propôs que o peso do bebê ao nascer, somado às condições do ambiente no qual aquela criança está, vão influenciar diretamente no risco dessa criança de desenvolver doenças cardiovasculares, entre outras doenças crônicas. Diversos estudos também indicam que crianças que nascem mais leves têm maior propensão a desenvolver obesidade. De fato, uma criança com baixo peso ao nascer, se submetida a uma nutrição farta até os cincos anos de idade (principalmente após o segundo ano), tem mais chances de ter um sobrepeso quando adulto, o que aumenta seus riscos de desenvolver Diabetes tipo II e doenças cardíacas: ou seja, a criança é o pai do homem! Esses estudos marcariam o início de trabalhos no campo da Origem Desenvolvimentista da Saúde e da Doença (DOHaD, sigla em inglês),  que busca estudar as pontes de causalidade entre fases precoces do desenvolvimento e doenças crônicas ao longo da vida.

 

Aluno: E se a mulher comer muito durante a gravidez? O bebê tem chance de ficar obeso?
Heloisa: E aí, o que vocês acham disso?
Aluna: Se a mãe comer… não comer muito, mas se ela comer coisas não saudáveis, pode causar problemas durante a gravidez e o bebê nascer com problemas, mas isso não significa que ele vai ser obeso.
Heloisa: Tem estudos mostrando que o ganho de peso materno durante a gestação está associado com o tamanho do bebê. Mas isso depende de onde a mulher partiu: se ela já era obesa antes de engravidar ou não. Se ela é muito magra, ela precisa ganhar mais peso do que uma mulher que já tem excesso de peso. Se ela já tem excesso de peso e ainda ganha mais peso durante a gestação, aí o risco de o bebê nascer grande e ser uma criança que vai ter problemas com peso é maior.

 

Barker, no início das pesquisas sobre o assunto, acreditava que os primeiros nove meses de vida eram os mais determinantes. Hoje se fala na importância dos primeiros 1000 dias: o que abrange os 9 meses de gestação mais os 24 meses até a criança completar 2 anos. Esses estudos têm sido bastante importantes não apenas na área médica, mas também para o desenvolvimento de políticas na área da saúde, como exemplifica o discurso da então Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, em setembro de 2011: “Acreditamos fervorosamente que melhorar a nutrição de mulheres grávidas e de crianças com menos de 2 anos de idade seja o investimento mais esperto que nós ou qualquer outra pessoa possa fazer”.

Barbieri explicou, a partir daí, um pouco mais sobre alguns trabalhos feitos em seu grupo de pesquisa. Um desses estudos usou o IMC (índice de massa corporal, que relaciona peso corpóreo e altura) para estabelecer a ponte entre os primeiros 1000 dias de vida e a fase adulta, nas cidades de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e São Luís, no Maranhão, estabelecendo a relação entre o IMC ao nascer, durante a idade escolar e durante a fase adulta. Segundo o professor, esse foi um caso de estudo de coorte, um tipo de estudo bastante comum nas ciências médicas.

A Profa. Heloisa Bettiol iniciou a segunda parte da apresentação explicando o que, exatamente, é um estudo de coorte. Segundo ela, é um estudo no qual se analisa se determinados fatores de risco (exposições) podem levar à ocorrência de doenças ou outras condições, acompanhando-se um grupo de pessoas ao longo de determinado tempo. Algumas dessas pessoas compartilham entre si uma característica ou um determinado evento e outras não, e observa-se se a presença dessa característica ou evento (exposição) favorece o aparecimento de doença ou outra condição de interesse (desfecho). Esse tipo de abordagem torna mais fácil de isolar as variáveis nesse estudo, permitindo articular determinantes biológicos e aspectos sociais em diferentes fases da vida. Um estudo pioneiro feito pelos pesquisadores acompanhou crianças nascidas entre 1978 e 1979 durante a infância e a vida adulta. Dos 6827 recém-nascidos nesse período na cidade de Ribeirão Preto, 1144 foram monitorados nesses três momentos pelo estudo. O acompanhamento dessa coorte permitiu diversos estudos na área e diversos avanços. Um desses avanços, segundo ela, foi compreender melhor qual a influência do tipo de parto, normal ou cesariana, no indivíduo adulto.

É sabido que a microbiota em nosso intestino é de grande importância para nossa saúde: essas bactérias ajudam na nossa nutrição, na defesa contra patógenos e na integridade da barreira intestinal. Pode-se dizer, portanto, que a microbiota intestinal está em simbiose com nosso organismo e, quando ocorre disbiose, ou seja, quando esse equilíbrio é modificado, doenças como diabetes e obesidade podem aparecer. Quando a criança sai do útero da mãe, que é um ambiente isolado e protegido, e passa pelo canal vaginal, durante o parto normal, ela tem o primeiro contato com bactérias – ou seja, a 1ª inoculação. Crianças que nascem de cesariana não teriam esse contato, uma vez que são retiradas por um procedimento cirúrgico. Isso influenciaria no desenvolvimento da microbiota intestinal da própria criança (o número de bactérias cresce no 1º ano de vida e está sujeito à colonização materna, à dieta oferecida, exposição ambiental, ministração de antibióticos, etc.; ou seja, esses fatores podem influenciar, assim como o tipo de parto, nesse desenvolvimento). O que se observou, por exemplo, é que crianças nascidas de cesariana tem um menor número de bifidiobactérias (bactérias importantes da nossa biota intestinal) em seu intestino. A obesidade em crianças nascidas de cesariana estaria associada, portanto, à microbiota intestinal da criança.

 

Aluno: A filha da minha tia, minha prima, nasceu de cesariana há três dias pesando 3,5 kg. Se ela tiver uma alimentação farta, ela tem mais chance de ser obesa no futuro?
Heloísa: Então, quando nós estamos olhando para um caso individual, uma pessoa, nós não podemos dizer: “Olha, essa menina nasceu de cesariana, pesadinha, então ela vai ser obesa”. Eu não posso dizer isso, em termos de indivíduo. Agora, em termos de população, eu posso dizer que essa criança tem mais chances de ter problemas de obesidade no futuro. Agora, se essa criança chegar ao consultório para fazer o acompanhamento com a gente, nós teríamos que orientar muito bem essa mãe, por exemplo, dizendo o que ela deve e o que ela não deve dar, em termos de alimentação, de acordo com a idade da criança, além de tomar cuidado com a quantidade de comida, estimular a criança a fazer atividades físicas, etc. Porque nós não podemos mudar o fato de que a criança nasceu de cesariana, mas podemos mudar o ambiente dessa criança, fornecendo alimentação adequada e orientar bem a mãe em relação a isso.
Barbieri: Temos que pensar em uma coisa também: 3,5kg é um peso bom ao nascer. Porém, se essa criança foi retirada prematuramente do útero, então pode ser que alguma coisa tenha acontecido ali durante a gestação (…). É importante lembrar que há janelas do desenvolvimento, uma delas sendo até o 2 anos. Se eu nascer pequenino e for alimentado de forma a permitir que eu possa crescer adequadamente, então eu ocupei essa janela até os dois anos adequadamente. Mas, se eu quiser recuperar isso dos 2 aos 5 anos, então a possibilidade de eu ter obesidade quando adulto aumenta.
Aluno: Ela nasceu de 38 semanas e essa data estava marcada desde o 5º mês de gestação.
Barbieri: Então, uma coisa é você fazer uma cesariana sem qualquer sinal do bebê, sem cólica ou qualquer outro indicativo que ele esteja pronto para nascer. Outra coisa é fazer uma cesariana no momento certo do nascimento.

 

O aumento do número de cesarianas (que já pode ser considerado uma epidemia: foram 62% dos partos hospitalares no ano de 2013 só na cidade de Ribeirão Preto) pode, portanto, ser um dos fatores que explicam o aumento dos casos de obesidade no mundo – embora outros fatores possam estar associados. Esse é um exemplo elegante de um estudo demonstrando que fatores no início da vida podem favorecer doenças crônicas ao longo dela. Outros estudos, revelando a relação entre tabagismo na gestação e cefaleia na criança ou mesmo a relação entre a altura do recém-nascido e o surgimento de hipertensão na vida adulta, contribuem para que possamos dizer que, de fato, a criança é pai do homem.
Ao fim da apresentação, que incitou diversas perguntas em quem estava presente no encontro, Heloisa alertou: embora devamos divulgar estudos como esse, eles não têm o intuito de gerar culpa ou arrependimento, mas sim de difundir o conhecimento – uma vez que o conhecimento é capaz de modificar atitudes. Além disso, Barbieri também apontou benefícios da cesariana, que contribuiu muito para a redução da mortalidade durante o parto, por exemplo. De fato, a mãe de uma das alunas do programa que estava presente naquela tarde, destacou que apesar disso, nosso futuro nunca está fechado: não é porque uma criança nasceu de cesariana que ela será obesa, mas essa pessoa deve ser atenta em seus hábitos e em como ela vive sua vida.

No encontro que marcou a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o professor Dr. Marco Antônio Barbieri encerrou sua fala respondendo à grande pergunta levantada no início: mais do que definir o que é ciência, devemos no perguntar qual a função da ciência. E ele recorreu, mais uma vez, à poesia: nas palavras do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, através da personagem do icônico cientista Galileu Galilei, “a principal função da ciência é diminuir a canseira da existência humana”.

 

  


Texto

Autoria: Vinicius Anelli

Edição: Prof. Dr. Marco Antônio Barbieri e Profa. Dra. Heloisa Bettiol

Revisão: Profa. Dra. Marisa Ramos Barbieri e Gisele Oliveira

 

Video

Edição: Roberto Sanchez

 

Diagramação

Vinicius Anelli

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