A importância do estudo das propriedades físico-mecânicas de formulações cosméticas

No encontro de 12 de maio, a pesquisadora Lívia Calixto trouxe aos alunos os conceitos básicos de física e química que fundamentam a cosmetologia, ciência que estuda os cosméticos, seus efeitos e sua melhor forma de desenvolvimento, produção, aplicação e armazenamento.
Lívia é formada em Farmácia e Bioquímica, pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP – USP), e desenvolve seu Mestrado em Ciência, com ênfase em medicamentos e cosméticos, fazendo parte do Núcleo de Estudos Avançados em Tecnologia de Cosméticos.
A pesquisadora conseguiu, desde o início de sua fala, aproximar os alunos do assunto, uma vez que cosméticos são produtos presentes em seu cotidiano. Lívia destacou algumas áreas do conhecimento que contribuem para a cosmetologia, como química, física e biologia. Os cosméticos contribuem para o embelezamento, higiene, proteção, conservação e correção, e seu uso parece ter se iniciado há milhares de anos – há registros de que o homem primitivo se embelezava com extratos vegetais e minerais em seus ritos, por exemplo.
Lívia destacou também como a pesquisa contribui para o desenvolvimento de novas tecnologias cosméticas. No trabalho que desenvolve, ela estuda a estabilidade do produto, o desenvolvimento de formulações cosméticas e também a avaliação sensorial de quem utiliza a formulação produzida.
Você desenvolver uma formulação cosmética é mais ou menos igual a cozinhar (…). Você precisa estudar o que você vai colocar naquela receita”, ela conta. Formulações cosméticas são misturas, ou seja, conjuntos de substâncias que compartilham um mesmo sistema. A formulação com a qual Lívia trabalha é um creme, uma dispersão coloidal (quando uma mistura parece homogênea, mas não é) do tipo emulsão, que possui uma fase aquosa, uma fase oleosa e um tensoativo.
Mas vocês me falaram que água e óleo não se misturam e formam uma mistura heterogênea. E aí?”. Lívia explicou que o tensoativo diminui a tensão superficial entre as duas fases, permitindo que elas se misturem e dando à mistura o aspecto coloidal, formando uma emulsão.
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No estudo que desenvolve, Lívia conta que são avaliadas as propriedades físico-mecânicas das formulações. As propriedades físicas, segundo ela, são características que se podem observar em uma substância sem alterar sua identidade, como viscosidade, massa e densidade. Já as mecânicas, são propriedades que definem o comportamento do material quando sujeito a cargas externas, sua capacidade de resistir ou transmitir esses esforços sem se fraturar ou se deformar de forma incontrolada. Em seu trabalho, ela investigou a influência dos ingredientes nessas propriedades, avaliou as propriedades físico-mecânicas e sensoriais e também verificou se há relação entre elas.
Para isso, ela explicou que avalia a consistência das formulações, propriedade pela qual a emulsão tende a resistir à deformação. “No nosso caso, a deformação é quando você espalha o creme pela pele”, esclareceu. Em seu estudo, a pesquisadora desenvolve diversas formulações e testa a consistência delas. “O que a gente deseja é o creme venha consistente, mas que ele se espalhe pela pele (…). Queremos que, quando mais força se aplica, mais viscoso ele fica na pele”.
Lívia mostrou aos alunos alguns aparelhos que são utilizados para testar essas propriedades, contando, inclusive, como se interpretam os dados que eles fornecem. Fernando Trigo, biólogo da Casa, chamou a atenção dos alunos para a interpretação do gráfico. Lívia também falou sobre a avaliação sensorial, que é feita com voluntários que são treinados antes de avaliar as formulações. A pesquisadora destacou que, desde 2013, ficou proibido o uso de animais não-humanos para testes com cosméticos, e também que qualquer experimento desse tipo é sujeito à aprovação de um comitê de ética – portanto é algo bastante regulamentado e controlado.
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Em sua fala, Lívia mostrou aos alunos todos os passos de um trabalho científico experimental, desde o embasamento teórico (introdução), passando pelas perguntas que serão respondidas e as hipóteses a ser testadas (objetivos), contou um pouco sobre os materiais e o método que é utilizado para o teste, mostrou como os resultados aparecem e como são interpretados, e também quais conclusões podem ser tiradas disso.
Ao fim da palestra, algumas questões foram levantadas. Um dos alunos quis saber mais sobre o tensoativo, sua constituição e propriedades. Outro aluno quis saber mais sobre o método: “Tem alguma porcentagem desses equipamentos que testam o produto errarem?”. A pesquisadora explicou que são feitas várias réplicas para evitar esses erros, mas que com certeza pode acontecer. “Então, quanto mais vezes a gente testar, melhor?”, ele concluiu. “Isso mesmo!”, explicou Lívia.
Outro aluno perguntou sobre a toxicidade das substâncias testadas durante os testes sensoriais. Uma questão que também apareceu foi sobre a importância dos testes em humanos: “São de suma importância”, Lívia garantiu. Um dos alunos levantou o uso de meios sintéticos que substituem os testes em humanos, mas Lívia afirmou que apesar de um grande avanço, os testes sensoriais ainda são insubstituíveis, apesar de alternativas sintéticas também serem importantes.

Em sua palestra, Lívia mostrou que por trás de um creme ou de uma maquiagem, estão diversos conceitos básicos e fundamentais da física, química, matemática e biologia. Aproximou os alunos da metodologia experimental com aplicação direta em nosso cotidiano e mostrou o papel da ciência no desenvolvimento de novas tecnologias.

 

texto por Vinicius Anelli

revisão por Marisa Barbieri, Luciana Silva e Roberto Sanchez

 

 

 

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