A “teoria” da “evolução”

12º Férias com Ciência – Cada macaco no seu galho, dia 2.

Dentre os vários equívocos comuns sobre o que é seleção natural e de como o processo de evolução biológica ocorre, dois erros recorrentes estão relacionados ao mero entendimento do significado de duas palavras em um contexto científico: evolução e teoria”. Com essa fala se se iniciou o segundo dia da 12ª edição do Férias com Ciência “Cada macaco no seu galho”, que teve como objetivo esclarecer equívocos comuns relacionados ao tema evolução, explicar por meio de um jogo lúdico como essa seleção atua nos seres vivos e, por fim, discutir a evolução do homem. Você também tem muitas dúvidas nesse assunto? Não pôde participar de nosso evento? Fique calmo! Aqui falaremos um pouco sobre os conceitos trabalhados e da experiência do segundo dia do Férias com Ciência (para saber sobre os outros dias e atividades realizadas nesse Férias consulte Dia 01 e Dia 03).

Logo no começo das atividades foi explicado que é comum no dia a dia utilizamos o termo “evolução” no sentido de progresso ou de melhoramento, por exemplo falamos da evolução dos aparelhos celulares querendo dizer que eles se tornaram melhores, ou ainda que nós evoluímos em alguma tarefa/habilidade no sentido de que que nos aprimoramos nela. Contudo, quando cientistas falam de “evolução biológica” o termo não carrega esse significado, e sim o de mudança ou transformação. Ou seja, evoluir do ponto de vista biológico significa se modificar, mas não qualquer mudança como aumento de tamanho corporal ou troca de dentição ao longo do desenvolvimento, e sim aquela mudança notada nas populações (conjunto de indivíduos) que ocorre ao longo de milhares de anos. Ainda, se a mudança (originária de mutações genéticas) ocorrida será difundida ao longo das gerações na população dependerá das pressões seletivas do ambiente em que o animal está inserido (Figura 1), as quais podem inclusive mudar com o passar do tempo evolutivo (mudanças climáticas, deriva continental, surgimento de rios e montanhas, novas espécies e relações ecológicas nos ecossistemas, etc.).

Figura 1: Diferentes variações hipotéticas em uma população de uma mesma espécie de coelho. A característica “cor” será afetada pela pressão evolutiva exercida pelo lobo que caça visualmente e enxerga com mais facilidade coelhos brancos em contraste com o ambiente marrom. Já a características “tamanho do dente” será afetada pela pressão seletiva da disponibilidade de alimentos duros os quais apenas dentes maiores são eficientes em processar. Evolução biológica é a mudança observada ao longo de gerações na frequência de determinada característica que foi vantajosa naquele ambiente e se fixou devido a sobrevivência diferencial e descendência com modificação. Nesse caso, com o passar de várias gerações a população de coelhos poderia ter um número maior de animais marrons, o que não ocorreria caso o ambiente tivesse um fundo branco, que favorecesse outra coloração. (modificado do simulador “Natural Selection” disponível em https://phet.colorado.edu/)

Ainda falando sobre terminologia, o segundo dia do Férias seguiu discutindo a palavra “teoria”, a qual as vezes é utilizada até para questionar a veracidade da evolução biológica “se evolução fosse verdade não seria só uma teoria e sim uma lei/fato”. O termo “teoria” também gera confusão devido sua utilização em nosso dia a dia de maneira diferente do seu significado dentro de uma ciência, como uma “teoria científica”. Ao passo que falamos “teoria” com o significado de algo que é um palpite ou um achismo, uma “teoria científica” é um corpo de explicações científicas, que surge a partir de diversas observações e de avaliação de hipóteses (testes/experimentos), as quais em conjunto explicam determinado fenômeno natural. Isto é, uma teoria científica como a da seleção natural, proposta por Darwin e Wallace, não é um achismo inconsequente feito mais de 150 anos atrás, e sim uma explicação científica verificada e ampliada a luz de novos conhecimentos durante todo esse tempo e por diversos grupos de cientistas no mundo todo!

Dessa forma, note que a evolução em si não é uma “teoria” em nenhum sentido, ela é sim um fenômeno natural observável, o qual ocorre independente de como expliquemos ele. Ou seja, assim como a gravidade, o calor ou a chuva, a evolução ocorreu e continua ocorrendo tendo o ser humano uma explicação para ela ou não. Já a seleção natural sim, é uma teoria científica (Figura 2), a qual descreve um dos processos evolutivos conhecidos. Porém, não só por ela nunca ter sido falseada, isto é, demonstrada errada, mas também por ela se sustentar como uma explicação plausível diante novas evidências, a seleção natural permanece como uma explicação científica central amplamente aceita para a evolução biológica.

Figura 2: Quadro construído conjuntamente com os alunos durante o segundo dia do Férias com Ciência.

Uma vez melhor esclarecida as questões de terminologia, todos os alunos jogaram o “jogo dos tentilhões” (Figura 3), com o objetivo de entender melhor a seleção natural. Nessa atividade lúdica, os alunos receberam em grupos diferentes tipos de pinças, pegadores e prendedores que deveriam simular os bicos de pássaros e a variação de formas que eles apresentam. Diante de diferentes sementes colocadas sobre a mesa alguns desses “bicos” conseguiam pegar com mais ou menos facilidade diferentes tipos de “alimentos” dos pássaros, como feijões, semente de girassol, nozes, alpiste, etc.  Com isso, foi feita uma analogia com a seleção natural, em que algumas das variações existentes em populações de seres vivos (decorrentes da variação genética) podem apresentar alguma vantagem na sobrevivência e/ou reprodução dos organismos que a portam, garantindo com que esses deixem mais descendentes com essas características para a próxima geração. Esse efeito ao longo de diversas gerações irá causar mudanças nas características dos organismos, ou seja, adaptação àquele determinado ambiente. Interessante notar que os alunos que estavam com “bicos” piores para capturar determinados “alimentos” de seu “ambiente” em determinadas rodadas, ficavam indignados de como apresentavam desempenho inferior às demais formas de “bico”, o que foi utilizado para discutir variações que podem ser desvantajosas em determinado ambiente.

Figura 3: Slide introduzindo o jogo dos tentilhões apresentado aos alunos e imagens da atividade desenvolvida.

Como última atividade do segundo dia do Férias foi proposta uma aula expositivo-dialogada sobre a evolução do homem. Nesse sentido, foi abordado um outro erro comum relacionado ao tema evolução, a imagem da “escala evolutiva”, em que chimpanzés progridem gradativamente até se tornarem um ser humano. Foi corrigido o equívoco de que a “teoria” da “evolução” nos diz que os chimpanzés evoluíram para o ser humano, explicando que na verdade o homem tem um ancestral comum com os chimpanzés e não uma descendência direta. Então somos todos macacos? Claro, somos todos primatas hominídeos (da família Hominidae, da qual além de nós fazem parte os chimpanzés, gorilas e orangotangos). Desde a existência do nosso último ancestral comum com os chimpanzés (entre 5 a 7 milhões de anos atrás), diversas espécies surgiram, uma grande ramificação de linhagens no tempo e espaço, sendo que a maior parte foi extinta (Figura 4). Contudo, duas dessas linhagens apresentam descendentes ainda viventes, uma representada pelas duas espécies de chimpanzés conhecidas (chimpanzés e bonobos) e outra pelos seres humanos.

Figura 4: Filogenias demonstrando o parentesco evolutivo do homem com os demais “macacos” (primatas). Note que a evolução humana não é uma escala evolutiva em direção ao homem e sim diversas linhagens com espécies que surgiram, muitas ao mesmo tempo, mas que hoje restam poucas viventes. (modificado de https://www.wisconsinacademy.org, https://pt.slideshare.net/ e https://mind42.com)

Após mais esse dia de atividade do Férias com Ciência os alunos estavam mais seguros em entender como a seleção natural como processo evolutivo poderia modificar as espécies ao longo do tempo, e, inclusive, gerar novas espécies. Apesar da dificuldade do tema e do tempo limitado para trabalhá-lo, foi possível notar mudanças nas relações que os alunos faziam verbalmente ao falar de evolução. Contudo, alguns equívocos comuns, que podem exigir mais aprofundamento ou tempo de estudo, foram percebidos mesmo ao término do curso, como o de confundir evolução biológica com qualquer processo de mudança ou melhora, como desenvolvimento, crescimento e ciclo de vida. E você, conseguiu entender um pouco melhor sobre evolução? Aconselhamos que você busque sempre estudar mais os pontos em que teve dificuldade, bem como continue acompanhando nossas postagens, que muitas vezes trazem esse tema inerente à biologia.

 

Texto: Caio M.C.A. de Oliveira

Revisão: Ricardo Couto e Marisa Barbieri

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