Abelhas solitárias e ninhos-armadilha

Em apenas dois encontros com o biólogo e doutor em entomologia Ricardo Marques Couto, alunos do Adote um Cientista construíram ninhos-armadilhas para capturar abelhas solitárias e analisaram os resultados obtidos com o especialista.

 

As palestras intituladas “Abelhas solitárias e ninhos-armadilha” e “Investigação de ninhos-armadilha”, que aconteceram nos dias 20 de março e 24 de abril de 2014, foram realizadas em paralelo com o Adote uma Experiência, cuja atividade experimental compreendia a confecção de modelos de investigação e a observação em campo com registro dos resultados. A avaliação e discussão dos achados foram realizadas com o auxílio do especialista e incluiu situações não previstas que colaboraram para a compreensão do ciclo de vida e algumas adaptações desses insetos.

 

Como estudar o ciclo de vida de animais holometábolos?

Quais as generalizações possíveis e quais as particularidades encontradas nas diferentes espécies?

 

O sucesso evolutivo dos insetos é inquestionável. A enorme diversidade, associada à capacidade de ocupação de praticamente qualquer bioma do planeta, torna esse grupo modelo para discussões de evolução e seleção natural, relacionados ao comportamento animal e sucesso reprodutivo.

Dentre as variações no ciclo de vida destes invertebrados, encontramos os holometábolos – animais que tem metamorfose completa durante o desenvolvimento. Neste modelo, normalmente valorizamos as mudanças sofridas no indivíduo, como as alterações encontradas na lagarta ao se transformar em uma mariposa ou as mudanças nas larvas aquáticas natantes de um pernilongo que se transformam em formas aladas. Entretanto, não podemos nos esquecer de investigar o entorno, o contexto e até mesmo a participação de “terceiros” nesta importante transformação. Para discutir este assunto, o entomólogo Ricardo Marques Couto realizou dois encontros com os alunos do Adote um cientista neste primeiro semestre de 2014.

Familiarizado com a proposta da Casa, o doutor em abelhas trouxe o estudo de ninhos-armadilha como modelo de investigação de holometábolos. A partir de espécies já conhecidas, como o besouro “rola-fezes”, os mosquitos da dengue e as abelhas carpinteiras, também conhecidas por mangavas, o especialista destacou o cuidado maternal. Este importante comportamento relaciona um conjunto de variáveis ambientais e próprias da espécie, como a seleção do local de nidificação, a escolha do recurso alimentar disponibilizado para a prole, a distribuição dos ovos nas diferentes câmaras do ninho e, até mesmo, as estratégias de defesa – selecionadas evolutivamente – contra prováveis predadores, como as vespas.

Neste dia, coincidentemente, no carpete vermelho que reveste a parede do anfiteatro do Hemocentro, os alunos observaram uma grande mariposa, imóvel e bastante próxima a um conjunto de ovos, os quais provavelmente havia ovopositado há poucos dias. O professor Ricardo, aproveitou o excelente exemplo para desenvolver e discutir algumas ideias presentes na sua palestra:

Ricardo: Como vocês escolheriam as condições para tentar criar [em laboratório] estes ovos?

Alunos pensam.

Fernando Trigo (Casa da Ciência): Como é a morfologia destes ovos? Existem hastes de sustentação?

Ricardo: A altura em que se encontra na parede dá muitas pistas. Qual altura deve ter a planta? Seria um arbusto?

Aluno: Pode ser.

Aluno: Borboleta só põe ovos em folhas? Está associada ao alimento, né?

Ricardo: Escolher a folha errada pode prejudicar o desenvolvimento? Devemos lembrar que existem pólens tóxicos…

Alunos observam ovos de mariposa no carpete do Anfiteatro Vermelho do Hemocentro. Na janela é possível ver a mariposa que provavelmente ovopositou (detalhe ampliado).

Ninhos-armadilha: investigação no Adote uma Experiência

Dentro da proposta de desenvolver o Adote uma experiência sobre o tema, os alunos construíram seus próprios modelos de ninhos-armadilha e realizaram observações diárias para verificar se alguma espécie realizou a nidificação. A análise dos resultados obtidos foi realizada com no segundo encontro dia 24 de abril. No período proposto para a experimentação – que compreendeu oito semanas-, nenhum grupo conseguiu observar a ocupação dos ninhos-armadilha, este resultado levou os jovens a refletirem e discutirem com Ricardo sobre a importância da sazonalidade no ciclo de vida destes organismos.

Ninhos-armadilha confeccionados por alunos do Adote um Cientista

Sabendo que os resultados poderiam ser escassos, o especialista apresentou alguns ninhos-armadilhas que estavam noMuLEC (Museu e Laboratório de Ensino de Ciências) há mais de um ano. Os materiais haviam sido confeccionados, sob orientação do pesquisador, por jovens do Pequeno Cientista em projetos com o mesmo tema. Durante a prática, mais de 10 ninhos foram analisados pelos 46 alunos presentes. Diferentes situações foram investigadas, como a análise de ninhos de vespas solitárias, fechados por barro e repletos de pequenas aranhas coletadas pela mãe, deixadas como alimento para quando os ovos emergissem. A relação deste comportamento com o controle biológico de diferentes populações foi discutida, assim como a diferença das toxinas produzidas por vespas (ação geral, neurotóxica) e abelhas (ação local).

Aluno: As vespas se alimentam apenas de aranhas ou comem outras espécies?

Ricardo: Elas podem se alimentar de baratas, opiliões e outros invertebrados.

Alunos realizam prática com ninhos-armadilhas. Mais de dez ninhos são averiguados e discutidos.

 

No encontro, os alunos também puderam estudar um ninho de Euglossini sp (abelha solitária de coloração verde-metálica), no qual observaram duas larvas vivas e analisaram os grãos de pólens (principalmente das flores da acerola) deixados como alimento pela mãe.

 

Larvas de Euglossini sp são encontradas vivas em ninho-armadilha avaliado durante a prática.

 

Ricardo: Por que estas abelhas não saíram do ninho? Existe alguma relação com pólens tóxicos?

Aluno: No caso das vespas, existe barro contaminado [por agrotóxicos]?

 

 



Espaço dos alunos

A partir da análise das filipetas do encontro, a equipe da Casa da Ciência produziu este infográfico destacando as principais dúvidas manifestadas pelos alunos e os principais conceitos aprendidos no encontro. A finalidade deste instrumento é a avaliação dos momentos de aprendizagem do aluno e valorização da sua dúvida.

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