As consequências do desmatamento no cerrado

O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, ficando atrás apenas da Amazônia. Originalmente, essa formação vegetal ocupava uma área de dois milhões de quilômetros quadrados, hoje, devido ao desmatamento, restam apenas 20% desse total. Em agosto de 2011, a professora Valéria Maria Melleiro Gimenez falou sobre o Cerrado aos alunos do Adote um Cientista e alertou para os perigos do avanço da destruição do bioma: “No ritmo de desmatamento, estima-se que em 22 anos já não haverá mais Cerrado no Brasil e, consequentemente, em breve, o pantanal e outras florestas que dependem dele também desaparecerão”. Isso porque neste bioma existem várias nascentes que dão origem a lagos, córregos e rios que têm papel fundamental na distribuição de água pelo país.

 

Dados da Embrapa Cerrados revelam que nesse bioma são encontrados, aproximadamente, 12.000 espécies de plantas, 199 espécies de mamíferos, 837 espécies de aves, 180 de répteis e 150 de anfíbios, 1.200 peixes e 67.000 de invertebrados.

Valéria é mestre em Biologia Comparada com foco em botânica pela USP, professora efetiva no ensino médio da Escola Estadual Tomás Alberto Whatelly e leciona em cursos de graduação em biologia da rede particular. Em 2002 participou do curso de especialização “As Células, o Genoma e Você, Professor”, promovido pela Casa da Ciência do Hemocentro de Ribeirão Preto.

Devido às inúmeras curiosidades sobre o Cerrado e os dados preocupantes do desmatamento, a Casa da Ciência convidou a professora para uma entrevista na 22º edição do Jornal das Ciências. Como o assunto é muito vasto, e, no decorrer da conversa surgiram diversas perguntas, parte da entrevista está disponível aqui. Confira alguns trechos:

Os Jet Streams podem sofrer alterações e consequentemente interferir nos processos naturais de vida, habitação e reprodução?
Os Jet Streams são correntes de ar que ocorrem naturalmente, produto de um movimento de convecção do ar na superfície devido alterações de temperatura na faixa tropical da terra. O sol aquece a superfície e o ar aquecido tende a subir às altas camadas da atmosfera, porém, conforme alcança as camadas mais altas, ele encontra a atmosfera mais fria e se resfria, e, mais denso, torna a descer, formando um movimento circular. Esse movimento é denominado Célula de Hadley. O Jet Stream é uma corrente de ar que ocorre em camadas atmosféricas mais elevadas que as Células de Hadley, e desse modo, são influenciadas pelo movimento ondulatório de correntes de ar na região do polo norte. Se, por acaso, em regiões em que ocorrem as “ilhas de calor”, que são regiões modificadas pelo homem – onde, por exemplo, a cobertura vegetal original foi removida ou alterada – e que ocorrem intensos efeitos das áreas urbanas e industriais, a temperatura da região é drasticamente alterada, esse fato pode influenciar no percurso do Jet Stream. Pois, se essas alterações forem muito próximas, o trajeto ondulante dele se modifica produzindo trajetos com curvas acentuadas que podem tender a formar círculos de corrente de ar. Essas deformações dos trajetos das correntes de ar causam movimentos circulares que podem produzir grandes rodamoinhos (tornados), alterações climáticas e imensos danos financeiros.

 

Árvore do Cerrado. Crédito da imagem: Fabiano Bastos/Embrapa Cerrados.

O que causa a produção dos aromas pelas flores nas primaveras? Eles servem como um atrativo para polinizadores?
Na verdade, os odores das plantas são resultado da expressão de certos genes. Os insetos são atraídos pelo aroma e na coleta do alimento acabam fazendo o transporte do pólen entre as flores, garantindo a polinização. Outros odores, muitas vezes imperceptíveis aos humanos, agem inversamente, atuando como repelentes aos herbívoros.
Você conhece alguma espécie do Cerrado que tenha propriedades medicinais e que possa trazer uma contribuição no tratamento de alguma doença? 
O barbatimão é uma planta bem típica do Cerrado que desenvolve substâncias taníferas e flavonoides. Ele é largamente utilizado na medicina caseira com grande espectro de ação. Há um enorme número de espécies cujos princípios ativos estão apenas começando a serem pesquisados, um exemplo é a Dimorphandra mollis, uma árvore do Cerrado muito vistosa, cujos frutos possuem um aroma fantástico de bolo de coco, muito apreciados pelo gado e animais silvestres. Esta planta já está se tornando escassa no Estado de São Paulo. Temos feito coleta dela para pesquisa em Química Orgânica. Os primeiros resultados mostram a presença de substâncias com propriedades com efeitos em doenças do sistema respiratório e até na Doença de Chagas. Por isso, costumamos dizer que as árvores são verdadeiras “farmácias”, guardam inúmeros princípios ativos que a maioria da população e a ciência desconhecem sua utilidade.
Como acontece a relação entre cupins e vagalumes no Cerrado. Por que essa afinidade entre eles?
No Cerrado existe uma relação muito interessante entre populações de cupins e vagalumes. Os vagalumes utilizam o cupinzeiro como abrigo e local para as fêmeas depositam seus ovos. A temperatura mantida no interior da colônia é bem uniforme e a luz emitida pelos vagalumes à noite atrai insetos para sua alimentação. Mas essa não é a única relação entre cupins e outros seres; por exemplo, é possível observar algumas espécies de psitacídeos (maritaca) que fazem ninho em cupinzeiros no alto de árvores. O interessante é que o filhote se utiliza de larvas do cupim como alimento. Quando os filhotes crescem, abandonam o cupinzeiro, que se refaz pelo trabalho dos cupins, voltando à dinâmica normal da colônia.

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