Comida estragada, Preconceito e ‘Coxinhas vs Petralhas’ uma relação biológica?

O palestrante já é um velho conhecido da Casa. Estudante de doutorado pelo Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Danilo Marques, desta vez abordou como nosso cérebro lida com as emoções e os sentimentos. Para melhorar, trouxe novas possibilidades para refletirmos sobre o preconceito, a intolerância e a intuição, na VII Semana Nacional do Cérebro de 2018.

Todo mundo fica incomodado quando visualiza uma barata ou comida estragada. Não precisa pensar muito! Nossa reação é instantânea, a lateral do nariz é suspensa, num ato involuntário. O nome dessa emoção é nojo. Querem ver outra demonstração de emoção?

Quem nunca sentiu medo ao ver um tubarão branco na água ou um leão na savana? A resposta de medo é automática! Segundo o pesquisador, quando sentimos o medo e o nojo de alguma coisa, uma área do cérebro chamada de ínsula é ativada. A ínsula foi por muito tempo negligenciada pelos pesquisadores. Só nos últimos dez anos, estabeleceu-se uma relação com as emoções humanas.

 

A ínsula funciona como uma espécie de intérprete do cérebro ao traduzir sons, cheiros ou sabores em nojo, desejoorgulhoarrependimentoculpa ou empatia. Sentimentos bem humanos, não acham?

Não, segundo o pesquisador. Trata-se de emoções! Sentimento é uma outra história. Isso mesmo. No sentimento os circuitos cerebrais envolvidos são diferentes, envolve o córtex pré-frontal. Querem ver um exemplo?

Ninguém em sã consciência ficará raciocinando ou pensando quando vê um tubarão pela frente ou um sanduiche estragado. Isso seria péssimo para a sobrevivência de qualquer organismo. Emoção é um programa de ação que faz parte da sobrevivência das espécies. Em um mundo com muitos predadores e recursos escassos, torna-se importante fugir e manter o grupo rival longe.

Agora pensem em um mundo globalizado, bastante populoso e miscigenado, onde os recursos são obtidos facilmente, sem necessidade de confronto. Seria mais tranquilo, com certeza. No entanto, a pré-história ainda habita em nós, mesmo o ser humano ter saído da pré-história. Pensem nisso!

Na palestra, o pesquisador relacionou o preconceito com a emoção. Situações de preconceito são recorrentes no cotidiano e segundo o pesquisador, tem uma raiz biológica. Longe de ser uma sensação abstrata, o preconceito tem uma representação concreta no cérebro. É real. Sabem onde o cérebro processo as emoções de preconceito racial, social ou de gêneros?

Na insula! Aquela mesma região que é responsável pelo nojo. Pela definição, preconceito é um juízo pré-concebido que não tem fundamento crítico ou lógico, ou seja, é uma reação automática e inconsciente. Então como lidar com o preconceito? Está tudo perdido?

Não. O córtex pré-frontal é o último grau de evolução do sistema nervoso da espécie humana. Nesta zona existem redes nervosas que condicionam a possibilidade de equilíbrio psíquico, humor, interrogação de natureza moral, autocontrole, concepção dos outros e de si mesmo, permitindo, portanto, uma concepção e controle refinado de si mesmo e do ambiente. Se a região da ínsula do cérebro é capaz de revelar o mundo das emoções, os lobos pré-frontais lhe oferecem a possibilidade do sentimento. Graças a esses lobos o homem, além do preconceito é capaz da tolerância ou além do erotismo (eros)* é capaz do amor (ágape)*.

 

*Eros = um amor mergulhado em paixão e romantismo, transmitindo também o sentido de desejo passional, sensual e sexual.

*Ágape = O amor ágape é aquele tipo de amor que não busca seus próprios interesses, é um amor desinteressado, puro e genuíno.

 

Texto: Ricardo Marques Couto

Revisão: Danilo Marques

 

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