Diabetes: do diagnóstico à terapia

Na palestra do programa Adote um Cientista do dia 5 de maio de 2016, os alunos tiveram a chance de conversar com Lucas Coelho Arruda, pesquisador parceiro da Casa, sobre a diabetes. Formado em Farmácia pela Universidade Federal de Ouro Preto, Lucas fez seu mestrado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) com foco em terapia celular no tratamento de Diabetes Mellitus tipo 1 e Esclerose Múltipla. Hoje, Lucas trabalha com células-tronco hematopoiéticas no tratamento de esclerose sistêmica.

Os alunos logo de início demonstraram certa familiaridade com a doença – a maioria conhecia pessoas que sofriam desse mal. Apontaram que a diabetes está relacionada com o açúcar no sangue e também com doenças associadas, como a cegueira.
Lucas iniciou sua fala a partir dessas preconcepções, utilizando dados epistemológicos para justificar a importância em se estudar a diabetes: estima-se que mais de 420 milhões de pessoas no mundo tenham a doença (dados da OMS, de 2015) e, só no Brasil, 13% é acometido pela diabetes, se caracterizando como a 4ª maior causa de morte no país. Projeções indicam que o número de casos vá dobrar em menos de 30 anos. Ou seja: é algo de extrema importância.
Existem vários tipos de diabetes, e a diabetes mellitus é a mais conhecida. O nome vem do latim (diabetes = cachoeira, referente ao aumento da quantidade de urina; mellitus = mel, relacionada à presença de açúcar na urina) e a doença tem registros que datam de 70 d.C.

 

Primeiramente, o pesquisador explicou o papel da glicose no metabolismo, como principal fonte de energia das células. Contou que, após a digestão, a glicose dos alimentos vai para o sangue, chegando aos diferentes tecidos e órgãos. O pâncreas é um órgão importante nesse processo, pois a presença de glicose no sangue estimula a produção de insulina pelas células beta das ilhotas de Langherans. “A insulina é um hormônio, que funciona como uma chave que abre a porta de entrada da célula para a glicose”, ele contou.
Lucas definiu a Diabetes Mellitus como uma síndrome metabólica caracterizada por uma deficiência de insulina, absoluta ou relativa, decorrente de secreção deficiente de insulina pelo pâncreas e/ou ação deficiente da insulina nos tecidos (resistência insulínica), caracterizando, por isso, alta concentração de açúcar no sangue, cronicamente elevada.
Os principais sintomas são fome e sede constante, vontade frequente de urinar (e urinar bastante) e cansaço.

 

Lucas, para os alunos: Qual a relação entre o cansaço e a fome, nesse caso?
Alguns alunos responderam apontando problemas com a digestão, mas Lucas explicou que a diabetes não envolve o processo digestivo em si. Um aluno, então, propôs que “a glicose é o que dá energia ao organismo, e como você não absorve a glicose, não tem de onde tirar energia, e por isso que dá o cansaço. Agora, a fome, é porque o organismo precisar de mais carboidratos, da alimentação, para ter energia”, e o pesquisador concordou: “Perfeito! Enquanto a glicose vai sendo eliminada, o corpo pede mais energia, e por isso a fome… mas a energia é eliminada… como em um ciclo infinito”.

 

O diagnóstico envolve uma anamnese clínica, na qual sintomas como perda e ganho de peso, poliúria (urina muito), polidpsia (muita sede) e excesso de fome, são sintomas característicos da doença. O exame laboratorial, então, vai medir os níveis glicêmicos (concentração de glicose no sangue) em jejum (“Em jejum, porque após a alimentação esses níveis tendem a aumentar muito”, explicou Lucas): glicemia acima de 126 miligramas por decilitro de sangue, já é considerado como diabetes.

 

Aluno: Não ficou claro para mim, por que o paciente bebe muita água.
Lucas: Ele bebe muita água porque urina muito (…). Isso é consequência do excesso de glicose no sangue, que é muita para ser reabsorvida – e a glicose que não foi absorvida é diluída em muita urina para ser eliminada.

foto4O palestrante também explicou que existem dois tipos de Diabetes Mellitus. A Diabetes Mellitus tipo I, também conhecida como diabetes insulinodependente ou diabetes juvenil, é o tipo mais raro (cerca de 5 a 10% dos casos de diabetes) e, normalmente, se inicia antes dos 20 anos. É uma doença autoimune, na qual ocorre a destruição das células beta do Pâncreas, envolvidas com a produção da insulina.
Já a Diabetes Mellitus tipo II acomete, normalmente, adultos após os 40 anos, e está associada a uma má alimentação, obesidade e sedentarismo. Diferente do tipo I, se caracteriza por uma resistência à insulina por parte das células do corpo.
Os sintomas são semelhantes, porque em ambos os casos há problemas na entrada de glicose nas células. No tipo I, porque há falta de insulina no corpo; já no tipo II, porque essa insulina, apesar de presente, não é capaz de “abrir” a célula para o açúcar.

Aluno: Uma pessoa que tem Diabetes, é difícil de se recuperar se ela fizer um machucado. Por quê?
Lucas explicou que um dos efeitos da alta concentração de glicose no sangue é que ela se liga às proteínas circulantes (em alguns pacientes, a glicemia pode chegar a 2000 mg/dL), e ao se ligar, afeta a atividade normal das proteínas. Isso afeta o sistema imunológico e também as proteínas envolvidas com a coagulação. O pesquisador contou que existem diversas complicações decorrentes da alta glicemia, como uma maior susceptibilidade a infecções, neuropatias, como a cegueira, e impotência sexual.

O tratamento envolve um acompanhamento constante da glicemia. Para Diabetes Mellitus tipo I, há a insulino-terapia, que é a reposição diária, e externamente, da insulina no organismo; transplantes também podem ajudar, como o transplante do fígado ou, mais especificamente, das ilhotas de Langherans. Para o tipo II, medicamentos que aumentam a eficiência da insulina (hipoglicemiantes) podem ajudar, e em alguns casos também há reposição da insulina.

Aluna: Eu já vi várias famílias em que várias pessoas tinham diabetes – é genético?
Lucas: É genético (…). Há problemas genéticos envolvidos com o metabolismo da glicose, e que podem ser passados de pai para filho, mas o hábito alimentar e o sedentarismo estão diretamente envolvidos com o desenvolvimento do Diabetes Mellitus tipo II.

 

foto2Os alunos fizeram outras perguntas, envolvendo o tratamento e a possibilidade de cura. Lucas explicou que algumas terapias já visam a cura, mas ainda são ineficazes. O transplante de células hematopoiéticas talvez possa controlar a autoimunidade no tipo 1, e é provável que no futuro essa alternativa funcione. Também contou que, durante a insulino-terapia, é preciso ter cuidado, pois excesso de insulina no corpo diminui a quantidade de glicose circulante, afetando órgãos como o cérebro.

Trazendo uma questão bastante familiar e trabalhando conceitos de fisiologia e homeostase, o pesquisador Lucas Arruda conseguiu despertar o interesse dos alunos, alguns inclusive que deixaram perguntas para que o pesquisador as respondesse mais tarde e, com certeza, embasar a relação entre eles e a doença.

texto por Vinicius Anelli

revisão por Luciana Silva


Perguntas dos alunos, respondidas pelo pesquisador Lucas Arruda por e-mail.

Qual é a ação antagônica entre a insulina e a glucagon nos 2 tipos de diabetes?
O glucagon é o hormônio produzido pelas células alfa do pâncreas quando há baixa taxa de glicose do sangue, visando aumento da glicemia por estimular a liberação de glicose pelo fígado. Antagonicamente, a insulina, hormônio produzido pelas células beta pancreáticas, atua na diminuição da glicose sanguínea por estimular a captação e o metabolismo da glicose pelas células. Ou seja, o glucagon aumenta e a insulina diminui a glicemia. No diabetes do tipo 1, ocorre destruição das células beta, culminando na ausência da produção de insulina e quadro crônico de hiperglicemia, porém não existe mal funcionamento ou dano nas células alfa pancreáticas, com isso, o glucagon irá desenvolver suas ações normalmente. No diabetes do tipo 2, apesar do pâncreas produzir níveis normais de insulina, a mesma não atua eficientemente nas células, dificultando a captação de glicose e resultando em hiperglicemia. Como não ocorre alteração na ação do glucagon e nem há problemas na produção do mesmo, ele continua agindo normalmente. Concluindo, a ação do glucagon se mantém a mesma independentemente do tipo de diabetes, enquanto que a insulina deixa de ser produzida (diabetes do tipo 1) ou perde sua capacidade de ação (diabetes do tipo 2).
As pessoas pré-diabéticas têm mais chances de ter diabetes ou com o tratamento adequado ela pode não ter diabetes?
Os pré-diabéticos têm sim maior chance de terem diabetes quando comparados aos não pré-diabéticos e o tratamento adequado com certeza pode impedir o desenvolvimento do diabetes. A pré-diabetes é a situação clínica precedente ao diabetes do tipo 2, caracterizado pelo estado de resistência à insulina. As principais causas estão relacionadas ao estilo de vida (má alimentação e sedentarismo) e a fatores genéticos, que convergem para o ganho de peso. Sendo o excesso de peso um fator essencial para o desenvolvimento do diabetes do tipo 2, tratamentos que visem mudar o hábito de vida do paciente e que consequentemente resultem em perda de peso podem sim resultar no não desenvolvimento do diabetes. Portanto, hábitos saudáveis, atividades físicas regulares e uma boa alimentação são fundamentais para não se desenvolver o diabetes, aliado ao acompanhamento médico e utilização das medicações adequadas quando necessário.

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