Físico: cientista maluco ou apenas um curioso a serviço da sociedade?

Está ai uma profissão cercada de mitos, grilos e, porque não, preconceitos. Para muitos, o físico deveria ser um sujeito musculoso, forte, de tanto fazer exercícios físicos. Não! O físico não é quem vive na academia de ginástica, malhando, nem quem cursou educação física. Ah, é aquele cara cabeludão que adora mostrar a língua e viver em órbita. Então, é o cara que estuda coisas complicadas, dá aula, sabe um monte de fórmulas,… E, assim, vão as diferentes versões (e distorções!).

 

Na verdade, o físico é um curioso, que é treinado para admirar e estudar a natureza, encantado por seus mistérios e procurando sempre responder às perguntas “como?” e “por quê?”. De certo modo, é alguém que contempla e “conversa” com a natureza através da linguagem precisa e universal da matemática. Pode se interessar por objetos extremamente pequenos, como as partículas subatômicas, ou por objetos muito grandes, como os planetas. Pode também trabalhar em áreas multidisciplinares, como a Física Médica, a Biofísica, a Epidemiologia, no desenvolvimento de dispositivos para a segurança militar e até mesma na Economia (econofísica). Alguns preferem abordagens por métodos experimentais, enquanto outros, adotam o caminho teórico, ou ainda o computacional.

 

Reza a lenda, que grandes empresas, em terras distantes às de Tiradentes, como a gigante Boeing da aviação, preferem contratar físicos para as funções chaves (ao menos, John Tracy, diretor de tecnologia da Boeing é físico, reforçando esta lenda!). Alegam que o físico tem perfil polivalente, podendo atuar em várias áreas além da sua. Ele não é tão bom em química, quanto um químico, não chega aos pés de um matemático em matemática, más, tem a capacidade de ser “razoável” em química, matemática, biologia, etc, enquanto os profissionais de outras áreas costumam ter mais dificuldades quando saem de suas respectivas praias. Verdade ou apenas autopropaganda, o fato é que são vários os exemplos das contribuições das ideias, das ferramentas, dos princípios e modelos dos físicos para a sociedade: invenção do transistor e a revolução que permitiu na computação e vida moderna, a descoberta do raio-X e todo o desenvolvimento dos diagnóstico por imagens, etc. Sabe o seu GPS? Pois é. Essa é uma aplicação da famosa teoria da relatividade. Isso sem contar na própria internet que nasceu no CERN, o laboratório europeu para pesquisas nucleares!

Instalações do CERN

Instalações do CERN

 

Qualquer que seja a área, ou enfoque, o físico é alguém treinado para resolver problemas, muitas vezes, valendo-se de aproximações (quem nunca ouviu falar do “ônibus cilíndrico”?). Já percebeu que precisa ter faro e imaginação, né? Além disso, para seguir esta carreira, é necessário ter vontade de aprender, gostar de desafios, matemática, de levantar hipóteses em conjunto com vontade (e paciência) para validá-las. Na graduação, as disciplinas básicas são mecânica clássica e quântica, óptica, ondulatória, termodinâmica, eletromagnetismo, estrutura da matéria, física computacional, cálculo e química geral.
Das várias possibilidades de atuação, escolhi a interface física-química-biologia-tecnologia (isso explica o que um físico – e não sou o único! – faz em uma Faculdade de Ciências Farmacêuticas), procurando entender as interações fundamentais em sistemas com proteínas. Esse entendimento contribui com o desenvolvimento e transporte de novos fármacos, dentre outras aplicações nas indústrias farmacêuticas, de alimentos e biotecnologia em geral. Em conjunto com o Prof. Ricardo Vêncio (outro físico que estava em um departamento de Genética, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, e, agora, é docente no Departamento de Computação e Matemática, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto), procuramos combinar estas ideias básicas para entender um pouco mais da relação entre as interações moleculares e as doenças, ou seja, a compreensão dos aspectos moleculares da vida sob o prisma da física. Assim, pode-se perceber que fazer ciência é uma das poucas atividades humanas, onde o prazer pessoal torna-se uma virtude a serviço da construção de um mundo melhor.

Complicado? Discordo! O que você me diz de tentar entender o ser humano?

 

Autor:

Prof. Dr. Fernando Luis Barroso da Silva
Departamento de Fisica e Química 
FCFRP – Faculdades de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo

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