Mistérios além do cérebro

Aristóteles acreditava que as emoções e seus transtornos tinham como origem o coração. Já Hipócrates relacionava a epilepsia com o cérebro. Desde a antiguidade tenta-se explicar, mas afinal o que é um transtorno mental?
Essa e outras questões foram abordadas na palestra do dia 31 de outubro do Adote um Cientista pelo psiquiatra Murilo Silveira de Souza, que acredita que o transtorno mental é tudo aquilo que altera a capacidade de lidar com a realidade e com a vida.
Infelizmente, nunca se falou tanto de ansiedade, depressão, TOC (transtorno obsessivo compulsivo), bipolaridade, TDHA e nunca se medicou tanto. O que está por trás dessa epidemia?
Diferente de outras áreas da medicina, na psiquiatria não é possível fazer um exame de sangue para descobrir se alguém está com depressão, como naqueles exames que medem nossa glicemia, colesterol, ácido úrico, entre outros, que fazemos para identificar possíveis doenças. Os transtornos estão além dessa lógica de bem contra mal. Eles são multifatoriais, enfatizou o pesquisador. O que significa isso?
Significa que um transtorno pode ter várias causas e o método empírico ajudou muito nesta empreitada revelando dados importantes para a psiquiatria. Já ouviram falar de Sigmund Freud? Considerado por muitos como o pai da psicanálise, ele observou que a droga clorpromazina bloqueia os efeitos da dopamina e melhora a esquizofrenia. Isso é dado empírico. Querem conhecer outros?
As vias dopaminérgicas. Elas consistem de uma rede de neurônios movidos a dopamina. A via mesolímbica, também chamada de via de recompensa e modulação de respostas comportamentais, se inicia nos núcleos da base do mesencéfalo e se conecta até os núcleos da base do sistema límbico. Vocês sabem o que são os núcleos da base?
É um conjunto de neurônios no cérebro que atuam como unidade funcional. A outra via dopaminérgica se chama mesocortical e conecta os núcleos do mesencéfalo com os núcleos do córtex cerebral, em particular o lobo frontal. É importante para a função cognitiva. Veja a imagem abaixo e observe onde se localizam essas vias.

Fonte: docplayer.com.br

Uma desordem na via mesolímbica (excesso de dopamina) pode causar alucinações e delírios, já a falta de dopamina na via mesocortical, provoca apatia ou preguiça. Esse é o quadro da esquizofrenia.
O mais surpreendente é que essa oscilação na quantidade de dopamina pode ser adaptativa, pois selecionar situações agradáveis, bem como evitar estímulos prejudiciais, pode ser uma vantagem na sobrevivência da espécie. No entanto, isso pode ser um “gatilho” para a compulsão e o vício, caso ocorra uma demanda alta desse neurotransmissor no sistema límbico.
Será que as condições sociais ou o meio que vivemos podem contribuir para o surgimento de transtornos mentais? Ficou curioso?
Vou dar duas dicas: assistam ao filme “Coringa”, do ator Joaquin Phoenix, para descobrir que os vilões não são tão maldosos assim, são humanos também; e assistam a palestra do psiquiatra Murilo, no canal da Casa da Ciência no Youtube, para refletir sobre nossa condição psicológica.

O Pequeno pergunta:
– As drogas podem causas transtornos mentais como a esquizofrenia, por exemplo?
R: Podem sim, e vale lembrar que ao falar de drogas não podemos tratar todas iguais. Cada droga e cada predisposição que um indivíduo tem vai ser influenciado diferente. Por exemplo, um dos fatores de risco para esquizofrenia é o uso de maconha e uma pessoa que já tem esquizofrenia tem um risco muito grande de ter uma recaída se fizer o uso de maconha.
– No contexto juvenil, há uma possibilidade de um jovem adquirir um transtorno mental por influência de pessoas ao seu redor que também possuem algum tipo de transtorno como depressão, ansiedade e outros?
R: É difícil responder por todos, mas acredito que isso pode influenciar sim. O TCC de um enfermeiro que trabalha comigo foi inclusive sobre a série 13 reasons why e o quanto aumentaram as buscas na internet sobre suicídio e como se suicidar após o lançamento da série. O falar sobre suicídio de uma maneira consciente para informar as pessoas e não incentivá-las é um dos grandes desafios da psiquiatria.
– A paralisia do sono e a insônia podem ser consideradas transtornos mentais?
R: Ambos estão na área da neurologia e da psiquiatria, mas a insônia fica mais próxima da psiquiatria e a paralisia do sono da neurologia. Uma pessoa pode estar passando por um transtorno de ansiedade ou depressão e por isso estar sofrendo de insônia, assim como uma pessoa pode ter insônia sem ter nenhum transtorno mental.
– Quando alguém vivencia algo ruim, como o suicídio de alguém próximo, essa pessoa pode desenvolver transtornos mentais também?
R: Sim, mas é difícil afirmar isso de forma categórica, pois cada caso é um caso, mas o que vemos é que quando alguém comete suicídio, muitas outras pessoas são afetadas ao redor, existem até estudos que mostram isso, por este motivo é muito importante dar um suporte às pessoas ao redor, pois elas podem desenvolver depressão, ansiedade e dependendo da situação, até mesmo o estresse pós-traumático.
– Você falou sobre os sintomas positivos da esquizofrenia, e os sintomas negativos?
R: A pessoa fica mais apática, ela perde a iniciativa. Muitas vezes o familiar do esquizofrênico em tratamento, ao perceber que os sintomas de alucinação melhoram também notam que a pessoa fica “preguiçosa”, e na verdade não se trata de uma preguiça, e sim de uma apatia, que é o sintoma negativo. E atualmente não há nenhum antipsicótico que trate de uma forma satisfatória os sintomas negativos.
Autores: Ricardo Marques Couto; Giovana Faria.

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