O relojoeiro cego

Lugares escuros normalmente estão associados ao medo. Na infância, a escuridão trazia calafrios e apenas alguns minutos em uma sala fechada já era motivo de desespero. E se a permanência se prolongasse por horas, dias, semanas e até meses? Como nosso corpo reagiria a essa situação?

Com essa problematização apresentada por Dr. Lucas Eduardo Botelho de Souza, na palestra do Adote do dia 10 de outubro, foi possível compreender um pouco mais a cronobiologia ou os ritmos biológicos.

Se ficar algumas horas no escuro pode dar medo, vocês conseguem acreditar que uma pessoa ficou 100 dias preso numa caverna com alimento e água disponíveis? Pois isso aconteceu de verdade e foi uma experiência científica para investigar se o corpo longe de uma rotina responde igualmente.

Os resultados dessa experiência mostraram que o horário do sono se alterou completamente. Segundo Lucas, a luz sincroniza o horário do sono. A presença de luz, captada pela retina via nervo óptico, inibe a glândula pineal, que é responsável pela produção da melatonina, conhecido como hormônio do sono. Sem saber a hora que o sol se pôs, essa pessoa perdeu a sincronia.

O pesquisador defende que a vida evoluiu respeitando o ciclo claro – escuro. De acordo com Lucas, temos um relógio interno conhecido como ritmo circadiano que foi desenvolvido com o surgimento da vida na Terra e sua evolução, respeitando os ciclos do dia e da noite. O que fazemos no escuro? 

A temperatura cai e o nível da leptina aumenta muito. Para quem não conhece a leptina, trata-se de um hormônio que regula a fome e a ingestão de alimentos. Níveis baixos desse hormônio despertam a fome, já níveis altos inibem a fome e isso é muito importante, pois sair durante a noite para caçar não seria nada apropriado, concordam?

O reconhecimento da importância do ciclo circadiano para a vida de qualquer organismo ocorreu em 2017, com o Prêmio Nobel conquistado pelos pesquisadores Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young.

 

 “Não basta se adaptar às situações; prever o que vai acontecer em seguida é essencial. Há uma grande vantagem em usar as primeiras horas do dia para caçar ou evitar ser comido”, exemplificou Anna Wedell, chefe da comissão que definiu o prêmio de Medicina ou Fisiologia. 

Não é apenas o comportamento que apresenta um ritmo circadiano, as células também apresentam um ritmo, ressaltou o pesquisador. Pesquisas mostram que a divisão celular ocorre em maior número no período da noite. Mas como essa regulação é feita?

Segundo Lucas, há um gene que governa a fabricação de uma proteína chamada PER que se acumula nas células durante a noite e se degrada durante o dia, funcionando como a areia que escorre em uma ampulheta. Esse foi o primeiro gene descoberto relacionado ao ciclo circadiano

Como ocorre em todo relógio, no biológico pode ocorrer atrasos e adiantamentos. Mas será que isso tem consequências? A resposta pode ser a obesidade, diabetes e câncer de mama, explicou Lucas. Ficou curioso e quer saber mais sobre a regulação do relógio? Acesse o canal da Casa da Ciência no Youtube e saiba que esse palestrante, hoje cientista, foi um ex-aluno de ensino fundamental que frequentou os programas da Casa da Ciência. Que esse ciclo, que não é circadiano, se repita muitas vezes!

O Pequeno pergunta…

  • É a melatonina que nos dá a sensação de sono?
    R: Sim, inclusive existem até pílulas de melatonina para pessoas que possuem dificuldades para pegar no sono.
  • Uma pessoa que têm insônia pode ter alguma disfunção com nos hormônios responsáveis pelo ciclo circadiano?
    R: Sim, ela pode ter um desregulamento nos hormônios do sono. Inclusive, pessoas que com insônia têm muitas chances de desenvolver vários tipos de doenças imunológicas, como a fibromialgia, por exemplo. 

Autores: Ricardo Marques Couto; Giovana Faria.

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