Projeto inclui Escola Social Marista Ir. Rui nas atividades da Casa

A Escola Social Marista Ir. Rui é a mais nova integrante das atividades semanais dos programas “Adote um Cientista” e “Pequeno Cientista” da Casa da Ciência. Iniciando em setembro de 2019 por meio de uma iniciativa desenvolvida pelo Caio de Oliveira, bolsista da Casa, a atividade integra o projeto Jornada Ampliada desenvolvido pela escola Marista. Com apenas um semestre de participação, já obtivemos resultados muito positivos com relação ao interesse e desenvolvimento dos alunos.

 

A Jornada Ampliada inclui diversas áreas de atuação, como teatro, jornal, ciências, etc, e segue uma pedagogia de projetos extraclasses, sendo considerada um segmento – assim como o Ensino Fundamental I, II e Ensino Médio – dentro da escola, com coordenação e corpo docente próprios. O objetivo do projeto é potencializar habilidades e necessidades dos estudantes, auxiliando quem tem dificuldades com algumas matérias, e também aprimorando as predisposições já existentes para outras.

 

Por ser o primeiro projeto em colaboração direta com a escola, este foi se modificando e sendo validado ao longo do semestre. Inicialmente, o programa que se enquadra na área de Ciências da Natureza (componente curricular “Ciências”) se chamava Projeto Jovens Cientistas e, posteriormente, passou a se chamar Projeto Eureka!. O objetivo geral é desenvolver o pensamento científico por meio da inserção social e iniciação científica em ambiente de pesquisa, apropriando-se do conhecimento científico e seu processo de construção, visando sua disseminação no espaço escolar.

 

Em apenas um semestre, obtivemos resultados extremamente satisfatórios e surpreendentes. Para nos aprofundarmos mais nessa repercussão, realizamos uma pequena entrevista com o Caio que foi inteiramente responsável pelo Projeto Eureka!.

 

  • Como você organizou o projeto com relação à ideia inicial, autorização e logística para trazer os alunos?

 

CAIO ​Quando iniciei como docente de apoio no Marista, tive conversas com a coordenadora do Ensino Fundamental II sobre a minha ligação com a Casa da Ciência e a possibilidade de levar os alunos. Como a escola tem a Jornada Ampliada, que são projetos oferecidos no contraturno escolar para alunos que se interessam ou que são indicados por determinadas áreas, por exemplo, circo, dança, educação financeira, entre outros, eles decidiram adicionar as atividades do Pequeno e do Adote a este projeto e eu me tornei, além docente de apoio do Fundamental II, também professor titular de um projeto da Jornada por 6h semanais (4h nas quintas-feiras na Casa da Ciência e 2h nas terças-feiras na escola). Para isso, eu elaborei um projeto para o segmento com planejamentos, avaliações e todas os objetivos necessários. Quanto à logística, a maior questão foi o transporte. A escola tem uma van que comporta oito pessoas (o motorista, eu e mais seis alunos), por isso no início, quando iam de 10 a 11 alunos era um pouco mais complicado. Algumas vezes outro carro da unidade era utilizado junto da van, em outras a van fazia duas viagens. Outra questão foi o motorista, pois docentes não podem dirigir carros da instituição e transportar alunos, por isso alguém de outro setor sempre era escolhido para nos levar e nos buscar. Ficou determinado uma pessoa, o Breno da Comunicação. Porém, na indisponibilidade dele, já tivemos pessoas do Financeiro, Jardinagem, Oficina e até Administrativo que fizeram a gentileza de nos levar até a Casa.

 

  • Qual era a expectativa e o que se confirmou?

 

CAIO Minha expectativa com os alunos era conseguir – com eles frequentando o projeto da Casa e ainda tendo 2h semanais comigo na escola – fazer com o grupo o que não conseguia fazer na Casa quando temos 120 alunos que passam apenas uma tarde da semana lá. Por exemplo, trabalhar a questão do como e por que anotar/registrar e desenvolver autonomia para um Canto da Ciência. Percebi também com o tempo que, mesmo empolgados e gostando, com muito interesse, o cansaço, acúmulo de atividades da escola e exigência do projeto que eu vinha colocando (para anotações, falando de fanzine, teatro, Canto da Ciência, tarefas do Pequeno, etc.) estava pesando para os alunos. Algo que eu já suspeitava e confirmei, pelo menos para um grupo novo de alunos, é que o Adote ou a Casa é um mundo completamente novo para eles, com vocabulário e atividades que exigem atenção e repertório. Falar de Canto, depois de Pequeno, Adote, palestras, orientação, Pré-Mural, Mural, sem contar todo o conteúdo de ciências, os confundia um pouco. Acredito que isso seja também pelo fato de serem alunos novos e de uma escola nova,​ ​sem a “tradição de Casa da Ciência” entre os alunos.

 

  • Sobre os alunos, como estavam no início, durante e agora? 

 

Os alunos foram escolhidos pela professora de Ciências entre os oitavos e nonos anos por serem público alvo do Adote. Dessa forma, a professora selecionou os que mais gostavam, tinham interesse, facilidade e notas altas em ciências, isto é, “vocação” científica. Ou seja, eram ótimos alunos. A maior surpresa foi que de 11 alunos apenas três alunos concluíram. Como iniciamos na metade do ano, alguns já tinham outros projetos em andamento e preferiram continuar naqueles. Houve um caso que relatei de desistência devido à timidez por ter ficado sozinha em um grupo do Pequeno, e além disso medo de Pré-Mural e Mural. Tivemos também motivos familiares, como ter que cuidar de irmão mais novo em casa. Uma das alunas que finalizou foi a que mais me surpreendeu. Para ela, o início das palestras e o grupinho mudaram tudo. Ela caiu no grupo “Sorriso Irradiante” da Odontologia, adorou projeto e tinha como companhia a Giovana e outros alunos veteranos da Casa. Acredito que estar em um grupo de ótimos alunos a estimulou muito. Na turma, dela ela já é uma das melhores, acho que elevou mais ainda o nível de boa aluna que ela podia ser. Havia até uma certa competitividade, pois ela chegava me mostrando as tarefas que fez para o Pequeno super caprichadas e exaltava o que fez a mais do que precisava, que tal pessoa do grupo não tinha feito tanto quanto ela, etc. Os alunos bons da Casa a incentivavam a ser melhor. Outro aluno que não terminou, mas que também sempre fazia perguntas foi muito legal. Notei que na Casa ele sempre fazia perguntas que eram mais focadas na palestra e no tema. Ele não perguntava algo genérico. A professora de Ciências relatou que ele melhorou muito nesse aspecto e que na aula as perguntas dele ficaram mais pertinentes. Outro relato da professora foi de que esses alunos, que já eram “os melhores da sala”, passaram a se cobrar mais por frequentarem o projeto. Em atividades na sala, tentavam sempre fazer melhor que os demais, ir além, já que eram os alunos que iam na USP.

 

 

  • Na escola, houve interesse de professores ou de outros alunos, dos que vieram à Casa?

 

 

​Sim, e me surpreendeu bastante. Acho que a escola lá, devido a pegada social que tem, é bastante humana assim. Muitos colegas, professores ou de outros setores não educacionais perguntavam sobre o projeto, como estava sendo, se os alunos estavam gostando, etc. Havia uma felicidade grande de existir essa parceria com a Casa, de alunos da escola poderem frequentar a USP semanalmente. Há também o interesse de “relatório”. Esse projeto, pelo potencial, foi acompanhado de perto por chefias da escola e representantes do grupo de fora. Dos alunos também havia, como eu não dava aula para nonos e oitavos anos (período da manhã) alguns me conheceram como sendo o professor que levava seus colegas para a USP. Alguns me abordavam, falavam que também gostariam de ir. A professora relatou que, em aula, às vezes alguém fazia uma boa pergunta ou comentário e quando ela elogiava eles falavam algo do como “Está vendo? Eu também poderia estar indo para a USP”. A professora também relatou interesse dos colegas em saber o que era aquilo que eles iam fazer toda semana na USP, e que, por ter colegas fazendo atividades relacionadas à ciência, isso despertava a curiosidade, pois eles viam que os colegas realmente gostavam.

Raquel (9º ano), Caio de Oliveira, Guilherme (8º ano) e Thierry (9º ano) no 30º Mural
Durante uma palestra do Adote, o aluno Kauã faz perguntas ao palestrante
Apresentação do projeto final no 30º Mural
Apresentação do projeto final no 30º Mural
Apresentação do projeto final no 30º Mural
Experimentos realizados por alunos nos encontros com seus orientadores do Pequeno

Quando perguntados sobre o que mais gostaram e aprenderam com o projeto, as respostas, com apenas um semestre de Pequeno, foram surpreendentes:

 

Raquel (Sorriso Irradiante)

“Quando eu cheguei no projeto eu tive um pouco de dificuldade em perguntar, porque eu via todo mundo perguntando só que eu às vezes não sabia formular perguntas. Então esse meu interesse em fazer perguntas fez com que eu prestasse mais atenção nas palestras, e isso foi gerando em mim um interesse maior em ciências. E depois que eu participei do projeto, para mim as aulas de ciências na escola também ficaram muito mais interessantes, ao ponto de eu querer estudar e pesquisar sobre ciência”

“Foi uma coisa que abriu muito a minha mente em relação a pensar de novo em fazer odontologia, pois eu já pensava em fazer quando eu era pequena (…) isso me fez pensar também na possibilidade de rever assim o que eu vou fazer no futuro. Eu aprendi muito sobre os lasers e acho que se alguém vier me perguntar eu vou saber responder pelo fato de eu ter trabalhado mesmo com isso”

Thierry (Jogos Eletrônicos no Ambiente Hospitalar)

“Esses projetos dão muita vantagem para nós, seria bom se todos pudessem frequentar e vivenciar o que nós vivenciamos. Despertam um interesse enorme em nós em querer sempre mais; querer sempre entender mais sobre a ciência, que é muito, muito ampla”

“Uma coisa que eu percebi que melhorei bastante foi na observação e concentração, acho que pelo fato de ficar ouvindo muitas palestras, toda quinta-feira, de assuntos muito amplos. Isso acabou despertando uma concentração maior. Também melhorei muito com as anotações. Eu quero sempre anotar bastante todo conteúdo, não só de ciências, mas qualquer conteúdo que é importante para mim”

“E algo que eu também achei bem legal foi quando a professora Clara mandou a gente criar uma hipótese e tipo na hora, automaticamente, eu já pensei em uma hipótese, e ela falou que foi muito boa. Eu falei que a jornada está fazendo efeito, pois essa criação de hipóteses melhorou bastante para mim”

“O Mural (da Casa da Ciência) em si é muito bom e uma oportunidade que você tem de mostrar todo o seu conhecimento para pessoas que você não conhece. Pensa: eu estou explicando para alguém que eu nunca vi na vida e ela está conversando comigo sobre uma coisa que eu aprendi, e estou repassando pra ela e ela está entendendo. É muito gratificante”

Guilherme (Estudo do controle motor em um modelo animal de pesquisa no laboratório)

“Foi uma oportunidade única porque no projeto é diferente da escola, e eu consegui entender mais o que é conceito científico, o que é ser um cientista, etc.”

“Em ciências eu já tinha um interesse absurdo, mas não era tão dedicado. O projeto me ajudou a ser dedicado, a anotar tudo que eu achava importante mesmo sem a professora falar para anotar, a ler mais livros sobre, e isso não foi só em ciências, em outras matérias também”

“O Mural (da Casa da Ciência) foi inacreditável. Apresentar um negócio que vai além do que nós aprendemos na escola foi muito legal mesmo”

 

Além dos depoimentos dos alunos, a professora Clara que dá aulas de Ciências no Marista também percebeu a mudança no ambiente de sala de aula:

 

“Melhoraram desempenho dentro da sala de aula’

 

“Já tinham curiosidade grande (8º ano), até excessiva, questionavam demais nas aulas. Depois que começaram a frequentar a jornada, eles conseguiram direcionar melhor o raciocínio lógico-científico, compreender mais o conteúdo e conseguir trazer questionamentos e temáticas que realmente se encaixam.”

 

“São excepcionais (9º ano), já sinto que passaram a se cobrar mais por estarem indo ao projeto. Querem fazer melhor. Quando a turma está fazendo de um jeito, eles querem conseguir um pouco a mais por conta dessa cobrança que eles sentem por fazerem parte de um projeto para o qual foram selecionados.”

 

“Estímulo dos educandos que estão fazendo para os demais”

 

“Alunos que vão potencializar a turma, pois a partir do momento em que um grupo começa a demonstrar interesse, a turma toda vai prestar atenção nisso, para entender o que é que eles fazem, e porque fazem. E muitas vezes já me questionaram sobre isso.”

 

“Tem me surpreendido muito porque desde que entrou nos núcleos de pesquisa da USP (…) ele acrescenta muito no conteúdo. Quando eu estou explicando alguma coisa ele lembra de aulas e discussões que teve na Casa da Ciência.”

 

Os desenhos abaixo foram feitos nos questionários disponibilizados pelo Caio, um no início e outro no fim do semestre, com indicação para “desenhar um cientista no seu cotidiano”. Inicialmente, nota-se que foi desenhado um típico cientista no laboratório, com instrumentos e símbolos de química, (fórmulas e tubos de ensaio) e usando jaleco. Depois foi feito um professor dando aula em sala para alunos, entendendo professores como pesquisadores também, e mudando clichês de fórmulas químicas para palavras chave inerentes ao método científico “hipótese” e “pergunta”.

Desenho do questionário disponibilizado depois de começarem a frequentar a Casa da Ciência

Desenho do questionário disponibilizado depois de começarem a frequentar a Casa da Ciência

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