Vírus, pequenos, mas poderosos

Hoje, doenças como o sarampo, rubéola e poliomielite estão praticamente controladas e podemos viver com mais qualidade de vida e tranquilidade. Isto se deve, em grande parte, aos pesquisadores que estudam os vírus, conhecidos como virologistas. O Prof. Dr. Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP de Ribeirão Preto (F.M.R.P.), trouxe para o Adote um Cientista, dia 29 de março, justamente detalhes sobre como os virologistas trabalham em prol de nossa saúde, e a importância de sua pesquisa nesse contexto.

A primeira coisa que chama atenção nos vírus é o seu tamanho. Para medi-los utiliza-se o manômetro (10-9metros), unidade que mede o bilionésimo do metro. Isso significa que são medidas milhares de vezes menores que uma única célula! Além de pequenos, os vírus são inertes, ou seja, precisam de um hospedeiro para se reproduzir e garantir sua proliferação. Sabem por quê? Porque em seu interior, dentro do capsídeo (carapaça protéica que revestem os vírus), existem mensagens contidas na forma de DNA ou RNA, que são expressas apenas quando o vírus está dentro de um hospedeiro e têm acesso à sua maquinaria molecular.

Mas como eu posso me tornar vítima de um vírus? Várias são as portas de entrada: mucosa dos tratos gastrointestinal (como na boca), respiratório, urogenital e a pele. E a transmissão pode ocorrer por diversas maneiras, pelo ar, leite, diretamente de outros animais (zoonoses) e até pelo beijo. Isso mesmo! Atenção aos beijoqueiros, há um vírus chamado Epstein-Barr, mais conhecido por ser uma variedade de herpes, que provoca febre, dor de garganta e aumento dos linfonodos na região do pescoço, podendo causar tais sintomas na pessoa infectada entre duas a três semanas.

O Hemograma (exame de sangue) auxilia no diagnóstico desta doença, pois os linfócitos (glóbulos brancos) atingidos por esse vírus se tornam atípicos e bem característicos quando observados em microscópio. Na verdade, segundo o pesquisador, se tratando de vírus, o diagnóstico clínico é difícil, pois os sintomas se assemelham muito ao estado febril comum. O caminho, então, é o laboratório, diz o pesquisador.

Chegamos ao laboratório! Como o cientista faz para identificar um vírus? Isolar o vírus é um trabalho de detetive. O Teste de ELISA (do inglês para ensaio de imunoabsorção enzimática) é um dos caminhos mais utilizados. Já ouviu falar? É uma técnica sorológica usada no diagnóstico de doenças que induzem a produção de imunoglobulinas (anticorpos presentes no sangue).

Utiliza-se uma microplaca de 96 poços (imagem abaixo), onde um antígeno de interesse está localizado no interior os poços (placa de ELISA) e, em seguida, coloca-se o plasma sanguíneo (soro) sobre os antígenos que estão sendo testados. Caso estejam presentes anticorpos no soro, específicos para o antígeno em questão, ocorrerá a formação da ligação antígeno-anticorpo que será rapidamente identificado.


A presença dos anticorpos determina se a pessoa já teve contato com o patógeno em algum momento da vida. O exame sorológico ELISA baseia-se principalmente na identificação dos anticorpos chamados pelos pesquisadores de IgG e IgM. Esses anticorpos detectam o estágio de diversas doenças. Vamos dar um exemplo:

 

 

Um problema com o teste de ELISA é que ele consegue detectar o vírus apenas depois de 6 dias do início dos sintomas, quando a infecção já está em um estágio mais avançado. No entanto, há técnicas moleculares mais precisas, que auxiliam no diagnóstico precoce. Um exemplo é a técnica de PCR, que a partir da década de 1980 passou a ser utilizada no diagnóstico de infecções virais.

Essa técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase em inglês) utiliza do sistema natural de replicação do DNA e do papel da enzima polimerase para multiplicar em milhares de vezes pedaços do genoma de um vírus. Com essa multiplicação, mesmo com uma amostra pequena de DNA viral, os pesquisadores são capazes de notar a presença viral no sangue de um paciente. E mais! Como a sequência de DNA de cada tipo de vírus é diferente e única, a técnica do PCR permite ainda os pesquisadores identificar qual vírus está infectando o paciente.

 Seja de forma direta (PCR) ou indireta (Teste de ELISA), os vírus podem ser identificados por médicos e pesquisadores interessados em melhorar nossa qualidade de vida. Todos esses esforços salvam vidas e epidemias que já mataram milhares no passado, hoje tem mais chance de ser são rapidamente combatidas. De pestes, passando por micróbios e, atualmente, vírus, esses agentes infecciosos cada vez mais estudados nos laboratórios, com foco na saúde pública, são ao mesmo tempo fantásticos e apavorantes, e a ciência vem descobrindo mais e mais sobre esses vírus causadores de doença.

 

Texto: Ricardo Couto

Revisão: Caio M.C.A. de Oliveira