Por que sentimos dor?

A dor é algo comum e conhecido a todos nós. Uma parcela diminuta da população (cerca de 50 pessoas em todo o mundo) é incapaz de sentir dor. Associada a desconforto e a sofrimento, a dor é majoritariamente vista como algo ruim. Por que ela existe, então?

A segunda palestra do encontro do dia 10 de março foi ministrada pelo Prof. Dr. Guilherme Lucas, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que confessou seu nervosismo em participar pela primeira vez do programa Adote um Cientista. Guilherme destacou a importância e o desafio em falar com alunos da rede básica de ensino, um exercício importante para quem está mais acostumado às comunidades acadêmica e científica.

Apesar do aspecto ruim que envolve a dor, o pesquisador destacou a vantagem evolutiva de sentirmos ela: a dor funciona como um sistema de alerta, uma manobra do organismo para evitar que danos ainda maiores sejam causados a ele – por exemplo, ao encostarmos em uma superfície muito quente, sentimos uma dor aguda que, em resposta, nos faz retirar rapidamente a mão dali, prevenindo queimaduras ainda piores. Guilherme valorizou a dor emocional também, e sua importância, uma dor que foi bastante mencionada pelos próprios alunos.
Mas seu foco, porém, foi na dor física. Sempre preocupado em interagir e em escutar o aluno, o palestrante trabalhou as percepções dos alunos sobre a dor, trazendo o ponto de vista da neurociência sobre o fenômeno.
Aluno: A dor é um paradoxo.

 

12916821_595214097314610_396485455767551752_oGuilherme contou que René Descartes, no século XVII, foi pioneiro em propor uma explicação sistemática para a dor. Para ele, ao tocar no fogo, por exemplo, algumas partículas de calor entravam por nossa pele, caminhavam por um fio em direção ao cérebro do indivíduo e, uma vez lá, abriam um compartimento onde se encontra o nosso espírito – caberia ao espírito agir sobre os músculos para se afastar da causa da dor. Ou seja, para Descartes, era o espírito quem transmitia a dor. Hoje em dia, sabemos que a dor é transmitida através do sistema nervoso.

 

Aluno: Mas, para a época, o que ele propôs parece com o que sabemos hoje. Por exemplo, nós temos sensores, não é mesmo, na nossa pele, e os nervos chegam até a medula espinhal e levam isso até o cérebro.

 

Guilherme destacou em resposta ao comentário do aluno que, à época, o desconhecido era atribuído ao “espírito”, mas que sim, o raciocínio tinha um embasamento interessante.
Após isso, explicou como a dor é transformada em informação pelas estruturas sensoriais, transmitida ao sistema nervoso central, interpretada, e desencadeia uma resposta motora – um processo extremamente rápido, que dura milissegundos.
O palestrante deu um panorama geral sobre o sistema nervoso, com foco no sistema nervoso central, passando pelo conceito de neurônio, a célula responsável pela transmissão e pelo reconhecimento da dor (entre inúmeras outras funções, uma vez que é a unidade funcional do sistema nervoso), e também suas propriedades. Destacou sua excitabilidade, condutibilidade e também sua capacidade de se comunicar, através das sinapses, com outras células, transmitindo informações.
Guilherme contou também mais sobre os diferentes tipos de dores (aguda, crônica e recorrente), além de explicar fenômenos comuns, como a dor referida, a analgesia provocada pelo estresse (relacionada à capacidade de modulação da dor) e a dor do membro fantasma.

Durante toda a palestra, os alunos se mostraram interessados e extremamente curiosos pelo assunto, trazendo questões que, embora não fugissem do escopo do assunto, trabalhavam outros conceitos, como “por que sentimos um choque no cotovelo quando batemos numa mesa?” ou mesmo “como somos capazes de aprender as letras do alfabeto?”.
Em alguns momentos, os temas se sobrepunham e complementavam conceitos trazidos na palestra anterior (leia mais sobre a outra palestra aqui), mas com um olhar mais voltado para a causalidade e para os mecanismos envolvidos, do que para o potencial e as possibilidades terapêuticas. Esse movimento, que estabeleceu relações interessantes entre a fala do Prof. Guilherme com a do palestrante anterior, Prof. Fábio, mostrou as diferentes nuances e abordagens de um mesmo assunto.

12916216_595214080647945_374604780391682367_oIndubitavelmente um sistema de gigantesca complexidade, o sistema nervoso despertou muito o interesse dos alunos. Ávidos por entender situações de seu cotidiano, ou mesmo por apresentar suas próprias interpretações acerca dos mecanismos, para muitos, os conceitos trabalhados nesse encontro foram novos. Essa é uma característica interessante do Adote um Cientista, que coloca em um mesmo ambiente pesquisador e alunos de diferentes anos do ensino básico discutindo assuntos complexos.
Além disso, foi uma palestra que ecoará nas semanas seguintes do Adote, que contarão com a presença de mais dois pesquisadores da área da neurociência, mas trazendo abordagens e visões distintas sobre o assunto.

Com um questionamento aparentemente simples, o palestrante Guilherme Lucas trabalhou aspectos evolutivos e sensoriais, além dos mecanismos e das estruturas envolvidas na dor. Trouxe conceitos básicos para o entendimento do sistema nervoso e despertou muito o interesse dos alunos, com uma deixa, inclusive, para participações futuras (e o mais breve o possível!).

 

texto por Vinicius Anelli

revisão por Marisa Barbieri

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